EBON MUSINGS: THE ATHEISM PAGES BUILDING BLOCKS

Um Fantasma na Máquina

Parte 1: Introdução / Onde se Esconde a Alma?

É central para muitas religiões, orientais e ocidentais, a doutrina do dualismo: a de que existe uma essência imaterial chamada de alma, a qual habita e anima nossos corpos e é a causa e a fonte da consciência, personalidade, livre-arbítrio, pensamentos, ideias, sentimentos, emoções, o senso de si - em resumo, tudo o que a pensa como sendo o "eu". Teístas tipicamente acreditam que a alma sobrevive à morte física do corpo e continua adiante ao que quer que venha após a morte, seja o além no Céu ou Inferno, ou a reencarnação em um novo corpo.

Eu sou um ateu porque eu não tenho encontrado evidência alguma que me leve a acreditar que as afirmações sobrenaturais de qualquer religião sejam verdadeiras, e a noção de alma não é exceção. De fato, como este ensaio irá demonstrar, há forte evidência contra a existência da alma em humanos, apontando em vez disso para a alternativa do materialismo - que a mente não está separada do cérebro, mas sim que surge e é produzida pela atividade neural dentro do cérebro. Dito de maneira simples, a mente é o que o cérebro faz.

Em termos práticos, deveria ser fácil julgarmos entre dualismo e materialismo, porque diferente da maioria das doutrinas religiosas, a noção da alma é uma ideia que implicaria ter consequências testáveis. Especificamente, se a mente humana é o produto de um "fantasma na máquina" e não o resultado de interações eletroquímicas entre neurônios, então a mente não devia ser dependente da configuração do cérebro que a abriga. Em resumo, deveria haver aspectos da mente que não têm nada a dever ao funcionamento físico do cérebro.

Até recentemente, esta predição era difícil de testar, mas inovações científicas modernas têm iluminado o assunto. Técnicas médicas como a TAC (tomografia axial computadorizada), PET (tomografia por emissão de pósitrons) e RMN (exame de ressonância magnética) permitem que a estrutura e função do cérebro viva sejam estudadas. Cientistas podem ver quais áreas do cérebro se "acendem" de atividade quando uma pessoa saudável realiza uma tarefa mental, ou eles podem examinar pacientes que sofreram uma sequela ou uma doença para ver quais partes do cérebro, quando afetadas, correspondem a quais déficits de função neural.

E já de cara, um resultado desapontador para teístas tem surgido. Algumas funções mentais são bem localizadas, enquanto outras são mais difusas, mas não existe nenhum aspecto da mente que não corresponda a alguma área do cérebro. De fato, sabemos precisamente várias regiões cerebrais que controlam muitos aspectos fundamentais da consciência humana.

A imagem do cérebro que é familiar à maioria das pessoas - o órgão de matéria cinzenta retorcida, mais ou menos do tamanho de dois punhos encostados um ao outro - é na verdade uma imagem apenas do telencéfalo, a área mais externa e superior do cérebro. Nos humanos, o telencéfalo ocupa aproximadamente 80% do volume cerebral total, e é responsável pela maioria das funções cognitivas de alto nível. A fina camada externa do telencéfalo, de poucos milímetros de grossura, é chamada de córtex cerebral ou simplesmente córtex, e é ele que tem essa aparência distinta, cinzenta, enrugada, dobrada e retorcida. ("córtex" é "casca" em latim).

O telencéfalo é dividido em dois hemisférios, o esquerdo e o direito, basicamente simétricos em estrutura, imagens espelhadas um do outro. Existe certa especialização de funções entre os dois; por exemplo, na maioria das pessoas a linguagem é controlada inteiramente pelo hemisfério esquerdo. No entanto, em grande parte os dois hemisférios fazem trabalhos semelhantes. Por exemplo, cada um recebe estímulos sensoriais e envia comandos motores para um lado do corpo.

Cada hemisfério é dividido em quatro regiões principais, chamadas de lobos: o lobo frontal, o lobo temporal, o lobo occipital, e o lobo parietal. Grosso modo, os lobos occipitais estão localizados na parte traseira do cérebro, os temporais ao fundo, os parietais no topo do cérebro, e os lobos frontais, como o nome sugere, na parte da frente, atrás da testa (Austin 1998, p. 150).

Cada lobo executa uma variedade de funções. Os temporais, por exemplo, prestam um importante papel na resposta emocional, memória e audição (e portanto na linguagem). Um conjunto de estruturas no cérebro chamadas ao todo de sistema límbico, o qual é responsável pelas primeiras duas funções, localiza-se principalmente dentro dos lobos temporais. Os lobos occipitais ocupam-se a princípio com a visão, embora os parietais também participem disso; os lobos parietais também processam informação de outros sentidos, especialmente o tato. Finalmente, os lobos frontais parecem ser resopnsáveis por muitas das qualidades que consideramos como exclusivamente humanas, incluindo a personalidade e o que se chama de comportamento "executivo": julgamento, motivação, planejamento e objetivos, regulação e inibição de ações, tomada de decisões, controle de atenção, e resposta apropriada a eventos e estímulos externos, entre outras coisas. As funções dos lobos frontais, e as mudanças que podem ser produzidas ao se danificá-los, serão discutidas em muito mais detalhes mais adiante neste ensaio.

Com esta plataforma básica em mente, podemos examinar aspectos mais específicos da função cerebral. Por exemplo, uma seção do cérebro chamada de Área de Broca, normalmente dentro do lobo frontal esquerdo (em pessoas canhotas ele pode em algumas vezes estar no lado direito), controla a habilidade de produzir a fala. Quando esta área é danificada por um derrame ou algum outro dano, o resultado é uma condição chamada de Afasia de Broca, a qual torna a vítima muda, capaz de entender a fala mas incapaz de falar por si. Uma seção vizinha chamada de Área de Wernicke, no lobo temporal esquerdo, executa o papel inverso: dá-nos a habilidade de entender a fala através da gravação das memórias de como as palavras soam. Danos a esta área causam a Afasia de Wernicke, na qual o paciente não consegue entender a fala, seja a sua própria ou a dos outros, e fala apenas uma balbuciação sem sentido algum. (Como a vítima perdeu toda a memória de como as palavras deveriam soar, ele está normalmente alheio ao fato de que há algo errado com ele, e não entende por que não consegue ser compreendido pelos outros.) Este jargão muitas vezes se parece com uma linguagem e é realmente confundida com um idioma estrangeiro por alguém não familiar com esta situação, muito embora não tenha sentido algum (Heilman 2002, p. 4). As implicações são evidentes para as seitas e religiões que acreditam em glossolalia. ("falar em línguas).

Outras seções do hemisfério esquerdo do cérebro são essenciais a outros aspectos da comunicação. A estrutura conhecido como o giro angular esquerdo contém as memórias de como as palavras são pronunciadas, enquanto que o giro supramarginal converte os sons da fala em letras (Heilman 2002, p. 49). Dano causado a esses sistemas, ambos localizados no lobo parietal, podem resultar em inabilidade de ler ou escrever, respectivamente conhecidos como alexia e agrafia. (Bizarramente, algumas pessoas com típicos específicos de sequela a essas regiões conseguem escrever, mas não ler). O giro esquerdo angular também parece prestar um papel na habilidade matemática, já que pessoas que sofrem sequelas nele algumas vezes se tornam incapazes de realizar até mesmo os mais simples cálculos (Ramachandran 1998, p. 19). Sequela em toda a área de linguagem do hemisfério esquerdo produz uma condição chamada de afasia global, na qual o paciente é completamente incapaz de se comunicar; esta síndrome será discutida em mais detalhes mais adiante.

A habilidade de sintetizar a entrada sensorial em uma imagem coerente do mundo está associada com regiões físicas do cérebro. O mais crítico de todos os nossos sentidos é a visão, e o cérebro despende mais recursos para a percepção visual do que a qualquer outra. Os lobos occipitais recebem dados de entrada dos olhos; grupos celulares dentro deles são especializados em processar aspectos específicos da visão tais como cor, bordas, forma e movimento (Heilman 2002, p. 183, 184). Informação do sistema visual então se separa em dois fluxos: o sistema "onde" do lobo parietal superior, o qual nos ajuda a formar as coordenadas espaciais dos objetos e navegarmos em nosso ambiente, e o sistema "o quê" dos lobos temporais inferiores, occipital e ventral, o qual nos diz o que é que estamos olhando (p. 100). Outras regiões, como o lobo parietal direito, controlam percepções sensoriais do nosso próprio corpo; uma seqÜela nesta região produz um distúrbio bastante bizarro chamado de assomatognosia, na qual o paciente é incapaz de reconhecer seu próprio corpo como sendo seu (p. 119). Estimulação elétrica do giro angular direito, uma subestrutura do lobo parietal direito, pode causar experiências extracorpóreas (Blanke et al. 2002).

Há ainda outras regiões cerebrais que controlam aspectos da consciência mais fundamentais do que a habilidade de se comunicar ou de navegar. Enquanto que o hemisfério esquerdo é tipicamente responsável por entender a linguagem em si, o direito intermedia os aspectos emocionais da comunicação, tais como o tom da voz de alguém ou a expressão em seu rosto. Uma sequela aos lobos parietais e temporais do hemisfério direito podem tornar uma pessoa incapaz de compreender demonstrações de emoção nos outros (Heilman 2002, p. 56).

Nossas emoções também surgem a partir das funções do cérebro. O hemisfério esquerdo parece governar a expressão de emoções positivas como felicidade e alegria, enquanto que o hemisfério direito governa primeiramente as negativas, como raiva e tristeza. Aqueles que sofrem sequelas no seu hemisfério esquerdo (deixando o direito, mais volátil, "no comando") muitas vezes se tornam gravemente deprimidas, mas sequela ao hemisfério direito pode deixar uma pessoa emocionalmente indiferente, até mesmo constantemente eufórica (p. 75-76). Estimulação elétrica de uma parte do cérebro, uma parte do sistema límbico chamado de amígdala, pode produzir um medo intenso (Heilman 2002, p. 74), enquanto que uma estimulação de outras regiões pode causar risadas incontroláveis e sentimentos de alegria (Ramachandran 1998, p. 201), e, ainda, estimular uma terceira região chamada de ínsula, pode produzir sentimentos de náusea e nojo (Glausiusz 2002, p. 33). Estimulação elétrica de uma quarta região, o septo, produz sensações consistentes de prazer, e frequentemente causa uma mudança súbita de humor, da depressão ao otimismo (Austin 1998, p. 170).

A memória, um aspecto fundamental da consciência, também está fortemente ligada a funções cerebrais. Uma pequena região do cérebro chamada de hipocampo, entre outras estruturas no sistema límbico, é crucial para formar novas memórias fatuais (Heilman 2002, p. 150); os efeitos que sua destruição causa sobre uma pessoa são no mínimo profundos.

A pergunta agora que surge, é: onde nisto tudo está a alma? Em qual lobo cerebral ela habita? Onde ela está se escondendo nesta teia de neurônios e sinapses?

No século XVII, o filósofo René Descartes propôs que a alma interagia com o cérebro através da glândula pineal, baseado em suas observações de que ela está localizada próxima ao centro do cérebro e é a única estrutura cerebral que é simples, e não duplicada. Infelizmente para Descartes, hoje sabemos que a glândula pineal é meramente parte do sistema endócrino; sua função principal é produzir melatonina, um hormônio que regula os ciclos de acordar e dormir, e influencia o sistema imune, entre outras coisas (Heilman 2002, p. 3).

Então, onde está escondida a alma? Área após área do cérebro tem entregado seus secretos às sondagens da neurociência, e nenhum traço dela tem sido encontrado. Quanto mais o nosso conhecimento avança, menos razão temos para supor que ela exista, e menos sustentável se torna a posição dualista. Toda a evidência que atualmente possuímos sugere que não existe nada dentro de nossos crânios que não obedeça às leis normais da Física.

Isto não deve implicar que não há nada de maravilhoso ou incrível sobre o cérebro. Pelo contrário, ele é considerado, com certa justificativa, a forma de matéria mais complexamente organizada do Universo. O cérebro humano médio tem mais de cem bilhões de neurônios, conectados por centenas de trilhões de sinapses. Tão imensa é a complexidade deste sistema, que se calcula que o número teoricamente possível de estados cerebrais excede o número de partículas elementares no universo conhecido (Ramachandran 1998, p. 8). O poder computacional bruto do cérebro tem sido estimado entre 10 trilhões e 10 quatrilhões de operações por segundo (Merkle 1989). (Para comparação, um dos supercomputadores mais rápidos do mundo, o Earth Simulator em Yokohama, Japão, pode executar 36 trilhões de cálculos por segundo).

O fato de nossas mentes surgirem do funcionamento de nossos cérebros não é nada com o que se desanimar. Pelo contrário, as chamas da evolução têm gasto mais de quatro bilhões de anos forjando o cérebro em um motor de assustadora complexidade e poder computacional, apenas para legá-lo a nós. Foi-nos dado um privilégio único e sem preço, um dom diferente de qualquer outra coisa no universo conhecido. Entender esta herança deveria somente nos elevar, e aqueles que afirmariam que esta maravilha orgânica não pode realizar nada por si só sem a ajuda de sombras enfraquecidas de superstição estão apenas se enganando ao substituir uma maravilha muito maior com uma bem menor.

Mas no fim das contas, é a evidência que tem que decidir a questão, e é então para as evidências que irei me dirigir. A Parte 2 deste ensaio irá apresentar e defender a posição que, não só não existe evidência alguma a favor da existência da alma, mas de que há fortes evidências positivas contra a existência da alma, desenvolvendo um argumento que batizei de argumento da unidade mente-cérebro. A Parte 3 irá discutir as causas neurológicas da religião, argumentando que toda a experiência religiosa pode ser total e parcimoniosamente explicada como o resultado da atividade eletroquímica dentro do cérebro. A Parte 4 irá discorrer sobre mais alguns argumentos contra a existência da alma, e finalmente, a Parte 5 irá considerar os maiores e mais resistentes mistérios da neurociência - a fonte das percepções sensoriais, do livre-arbítrio, da consciência - e mostrará que estas questões de forma alguma oferecem suporte para o teísmo.

Parte 2: O Argumento da Unidade Mente-Cérebro

O que a alma faz?

Incrivelmente, ainda estou para encontrar alguma fonte teísta que explique isso. Aqueles que abordam o tópico da alma parecem contentes em assumir que todo mundo sabe o que ela é por quais funções ela é responsável.

No entanto, ainda que nenhuma fonte teísta por onde passei explique claramente a natureza e função da alma, é bem simples de deduzir estas propriedades baseado no que os teístas afirmam acontecer à alma de alguém após a morte. Na estrutura de crença de muitas religiões, quando o corpo de uma pessoa morre, sua alma parte e vai encarar Deus, onde é julgada baseada nas ações da pessoa em vida. Se a pessoa foi virtuosa, a alma é permitida a entrar no Céu por uma eternidade de recompensas; se a pessoa foi maligna ou pecadora, sua alma descerá ao Inferno para uma eternidade de punição. É ainda afirmado por estas religiões que ao longo deste processo há uma continuidade da consciência, i.e., a alma estará autoconsciente, sentirá que é a mesma pessoa que era quando estava incorporada, e será de certa forma a mesma pessoa, de forma que a recompensa ou o castigo será justificado.

A partir disto, é relativamente fácil resolver o que a alma deve fazer. Se minha alma é a parte de mim que me pensa como o meu "eu", que me torna a pessoa que sou, e que tem a responsabilidade dos meus atos durante a vida, então deve ser responsável por três coisas: identidade, personalidade e comportamento. Identidade é consciência, autoconhecimento, meu reconhecimento de mim mesmo como um ser distinto e autônomo, contínuo através do tempo. Personalidade é composta dos traços de caráter que combinados me tornam um agente único. Comportamento é a soma total dos atos que faço, sejam eles bons ou maus, durante a minha vida. Até certo ponto, estas três categorias se misturam umas às outras; identidade engloba personalidade, e personalidade determina o comportamento - mas se a teologia dualista estiver correta, tem que ser afinal a alma, e não o cérebro, a fonte de todas as três.

No entanto, como um ateu, eu argumento que esta teologia dualista não está correta - que essas três coisas não estão separadas do cérebro, não estão sequer ligadas ao cérebro, mas são unificadas com o cérebro. As evidências mostram que elas são completamente determinadas pela configuração física do cérebro, e que uma mudança a esta configuração pode alterar ou eliminar qualquer uma delas. Reusmindo, mostrarei que de acordo com o que a posição materialista prevê, cada parte da mente é inteiramente dependente e controlada pelo cérebro. É isto o que chamo de argumento da unidade mente-cérebro, e eu sinto que é um dos argumentos mais fortes contra muitas variedades de teísmo.

Afinal de contas, se existe uma alma imortal, por que ela seria subordinada à tão falha Biologia? Se existe um deus que é bom e justo, e que nos pune ou nos recompensa por nossas ações, ele não ajeitaria as coisas de forma que estas ações possam ser ditadas ou alteradas por química cerebral, genes, ou outros fatores sobre os quais não temos controle. Ao menos que ele seja um tirano injusto, ele tornaria nossas ações o resultado da livre escolha do indivíduo. Isto é consistente com a ideia da consciência surgir de uma alma espiritual, nada sujeita às fraquezas do corpo físico. Infelizmente, ambas as ideias são contraditas pelas evidências. As evidências são inegáveis onde nossa identidade, nossa personalidade, e nosso comportamento são unificados com o cérebro, e podem ser dramaticamente influenciados por causas além do nosso controle, que afetam o cérebro. Abaixo seguem estudos de caso que demonstram esse princípio em todas as três áreas.

(Nota: Exceto no caso de Phineas Gage, discutido abaixo, as fontes que forneceram esses casos tornaram fictícios os nomes e circunstâncias dos pacientes, por ser prática padrão proteger seu anonimato. Em todos os casos, eu segui a pista destes artigos originais usando estes detalhes. Os aspectos clínicos destes casos, no entanto, são todos verdadeiros.)

Unidade de Identidade

Amnésia Pura

Embora existam distúrbios neurológicos muito mais incomuns que suportam o argumento da unidade mente-cérebro, o primeiro que este ensaio irá examinar é relativamente bem conhecido e direto: amnésia, a perda ou perturbação da memória. O tipo mais conhecido de amnésia é a inabilidade de relembrar eventos passados devido a um golpe na cabeça ou outro trauma cerebral. Esta condição é conhecida dos neurologistas como amnésia retrógrada, e na maioria dos casos é transiente, englobando apenas as memórias mais recentes e durando apenas um breve período de tempo. No entanto, o tipo com que este ensaio irá lidar é menos conhecido e mais severo em suas repercussões: a amnésia anterógrada, a inabilidade de formar novas memórias.

Amnésia anterógrada permanente - uma total inabilidade de formar novas memórias, sem impactar a capacidade intelectual em qualquer outra forma - é também conhecida como amnésia pura (Esta condição foi dramatizada no filme Amnésia, de 2000). Resulta muitas vezes de abuso de álcool (uma condição chamada de síndrome de Korsakoff), mas também pode ter outras causas. O caso mais famoso já registrado é o de um homem identificado apenas como H.M., que viveu na metade do século vinte. Após uma pancada na cabeça na infância, H.M. começou a sofrer de epilepsia severa, com ataques frequentes originados nos lobos temporais do seu cérebro. Os ataques não respondiam à medicação, e para curá-lo, os cirurgiões decidiram remover as porções anteriores de ambos os seus lobos temporais. Este procedimento realmente lhe trouxe alívio contra os ataques, mas teve um efeito colateral não intencional. As porções removidas de seu cérebro continham os dois lobos conhecidos como os hipocampos, os quais se sabe hoje serem críticos para a formação de novas memórias.

Como resultado da cirurgia, H.M. adquiriu um caso grave de amnésia anterógrada. Ainda que sua inteligência ficou intacta e que ele tenha retido a maioria das memórias que tinha antes da cirurgia, ele perdeu completamente a habilidade de formar novas. Tão logo ele deixava de prestar atenção a algo, esquecia-se completamente de tê-lo feito um dia. Ele não sabia em que data foi, não sabia nada dos eventos atuais, e era incapaz de lembrar conversas minutos depois de encerradas. Drs. Brenda Miller e Suzanne Corkin o estudaram por anos, mas ele nunca as reconhecia ou se relacionava com elas; elas tinham que se reapresentar toda vez que o encontravam (Heilman 2002, p. 149-150). (Para um tocante registro da perda de H.M., veja "O Dia em que Seu Mundo Parou.".)

A memória é uma parte tão natural e integral do nosso funcionamento diário que chega a ser difícil imaginar como deve ser uma existência sem ela. Da mesma forma, é quase impossível passar com palavras a natureza trágica e terrível desta condição e a importância do que H.M. e pessoas como ele perderam. Outro estudo de caso, no entanto, pode explicar melhor este ponto.

Em 1985, um músico profissional chamado Clive Wearing adoeceu de um caso severo de encefalite - uma infecção viral que atacou seu cérebro, produzindo inflamação e um substancial dano cerebral. Com a ajuda da medicina moderna, ele sobreviveu e se recuperou, mas logo se tornou aparente que ele não sobreviveu sem sequelas. Como H.M., seus hipocampos foram destruídos, deixando-o com um caso permanente de amnésia anterógrada total.

Superficialmente, Wearing parece intacto. Suas emoções estão intactas, assim como suas faculdades intelectuais e racionais, e suas habilidades musicais não foram afetadas. Ele ainda reconhece sua esposa e a cumprimenta com felicidade e afeição quando a vê, e ele ainda sabe tocar o piano ou o cravo com toda a técnica que tinha antes da doença. Mas algo sobre ele está profunda e fundamentalmente errado. A sua amnésia é tão densa que ele não pode se lembrar de literalmente nada que tenha acontecido alguns minutos antes, e como resultado, ele continuamente acredita que apenas acabou de recuperar a consciência. Ele preenche seu diário com páginas e páginas do mesmo registro, repetido ad infinitum: "Agora eu estou completamente desperto, pela primeira vez em anos" (Time-Life 1991, p. 85). Ele não reconhece nem se lembra de ter registrado nada antes, nega ser o autor dos registros se perguntado, e rapidamente se irrita se lhe é apontado que eles tem a sua letra. Da mesma forma, toda vez que a esposa de Wearing, Deborah, o visita, ele imediatamente esquece a visita tão logo ela deixa o recinto. Quando ela retorna, mesmo que tenha saído por apenas alguns minutos, ele a cumprimenta com alegria e afeição, declarando que não a tem visto por meses e perguntando por quanto tempo ele esteve inconsciente (Baddeley 1990, p. 5).

O dano cerebral de Wearing o deixou completamente incapaz de aprender quaisquer novos fatos. Quando são feitas tentativas de lhe ensinar qualquer coisa, ele facilmente se torna frustrado e irritado, e é claro, dentro de minutos ele esqueceu totalmente da experiência. Ele poderia ler (e lê) o mesmo livro ou assistir o mesmo programa de TV várias vezes, e a cada vez fica igualmente surpreso e encantado com o desenlace. Sua luta contra a doença destruiu também algumas de suas memórias do passado: ele se lembra de eventos de sua vida apenas como rascunhos vagos, e ele não sabe mais quem é a Rainha da Inglaterra, ou quem escreveu a peça Romeu e Julieta (ibid.)

Wearing, é claro, vive completamente indefeso na vida cotidiana e requer cuidado constante. Mas há outra implicação de sua condição que é, dependendo de como você enxerga, ou uma pequena misericórdia ou a mais cruel das ironias. A implicação é esta: Clive Wearing não está a par, e não pode estar, de que há algo errado com ele. Ele não pode aprender a natureza de sua condição, não mais do que pode aprender qualquer outra informação. Se lhe fosse contado o que lhe acontecera, ele iria sem dúvida sentir todas as sensações de choque e desânimo que qualquer uum sentiria, e logo então iria esquecê-las completamente momentos depois. Sem memória, ele está preso em um presente eterno, sem fim, sem passado nem futuro. Salvo por algum avanço radical que tornaria possível recuperar seu cérebro danificado, ele viverá assim até o dia em que morrer.

Ainda que a habilidade de Clive Wearing de formar novas memórias esteja irreparavelmente destruída, ele consegue se lembrar, ao menos em linhas gerais, dos eventos de sua vida. O que não é o caso de outro paciente com uma amnésia ainda mais severa, um paciente estudado por Antonio Damasio e colegas. Este paciente, que sofreu sequelas nos hipocampos e os lobos temporais (entendidos como importantes para guardar memórias), sofre de amnésia anterógrada total e retrógrada quase total: ele não pode formar novas memórias nem relembrar as antigas. Ele está preso num presente permanente, um vazio de consciência sem memória.

"De fato, ele não tem senso de tempo algum. Ele não pode nos dizer a data de hoje, e quando pedimos que adivinhe, suas respostas são loucas - tão disparatadas quando 1942 e 2013... Este paciente não consegue dizer sua idade, tampouco. Ele pode adivinhar, mas seus chutes tendem a estar errados. Duas das poucas coisas específicas que ele sabe ao certo são que ele é casado e que é pai de dois filhos. Mas quando ele se casou? Não sabe dizer. Quando os filhos nasceram? Ele não sabe. Ele não consegue se colocar na linha de tempo de sua vida familiar." (Damasio 2002, p. 69-71)

Como o Dr. Damasio nos conta, a esposa do paciente se divorciou dele há 20 anos, e seus filhos há muito já cresceram e se casaram. Este homem ainda possui uma alma? Em que sentido ele está consciente? Ele está à deriva num mundo de escuridão, um vazio sem passado ou futuro, meramente um presente sempre em movimento que continuamente escapa de vista.

Mais um caso de estudo irá reforçar o ponto de o quanto esta condição é devastadora, como ela priva uma pessoa completamente de algum aspecto fundamental de sua humanidade.

O hipocampo não é a única estrutura cerebral que parece ser vital para assentar novas memórias. É parte de um circuito no cérebro envolvendo várias regiões distintas, todas as quais parecem ser igualmente importantes para esta tarefa. Uma dessas regiões, que se conecta diretamente ao hipocampo, é chamada de fórnix, e o Dr. Kenneth Heilman nos conta sobre uma paciente chamada Flora Pape cujos fórnixes esquerdo e direito tiveram de ser extirpados para salvá-la de um tumor cerebral que lhe ameaçava a vida. A sra. Pape vivia no leste de Kentucky toda a sua vida, até que ela e seu marido se mudaram para Jacksonville, Florida, dois anos antes de sua cirurgia. Na época de sua cirurgia, ela tinha dois filhos na casa dos 20 anos, ambos ainda vivendo em Kentucky.

Quando ela recebeu alta do hospital, seu marido lhe levou de Gainesville para sua casa em Jacksonville. Após deixar Gainesville, seu marido percebeu que ela olhava pela janela e dizia "Minha nossa!". Ele a perguntou o que a preocupava e ela disse, "O que aconteceu com as montanhas?"
Ele perguntou, "Que montanhas?"
Ela respondeu, "Você sabe, as montanhas."
Ele disse "Não há montanhas aqui."
Ela respondeu "Sem montanhas no Kentucky. Devemos estar na parte oeste do estado. O que estamos fazendo aqui?"
O sr. Pape soube pelo médico que a cirurgia poderia piorar a memória dela, mas ainda assim ficou surpreso. "Querida, não estamos no Kentucky. Estamos na Flórida."
Ela perguntou, "Por que estamos na Flórida?"
Ele lhe contou que se mudaram para Jacksonville uns 2 anos atrás. Ela disse, "Nos mudamos para Jacksonville? Por quê?" Ele lhe disse que a empresa tivera lhe pedido pra se transferir. Ela perguntou, "Para onde estamos indo agora?"
"De volta para Jacksonville de Gainesville. Você fez uma cirurgia no cérebro. Era um tumor. Os médicos acham que tiraram tudo. Você está tendo alguns problemas de memória, mas os cirurgiões esperam que melhore com o tempo."
Então ela perguntou, "Quem está cuidando dos meninos?"
"Ninguém", ele respondeu. "Eles estão adultos e vivem no Kentucky."
"Que quer dizer, adultos? Ainda são adolescentes."
"Não, não são. Já passaram dos 20. Eles vêm esse fim de semana para ver você."
Ela parou de fazer perguntas por alguns minutos e olhou pela janela do carro. Então ela se virou para o marido e perguntou, "Onde estão todas as montanhas?" (Heilman 2002, p. 151-152)

Como H.M., Clive Wearing e o paciente do Dr. Damasio, o distúrbio de memória da sra. Pape parece ser permanente, e nenhum tratamento conhecido da ciência médica pode curá-lo. A pergunta agora precisa ser feita: de acordo com as crenças dualistas, o que aconteceu com essas pessoas? Cadê suas almas?

Se algum deles não era religioso antes do surgimento de suas condições (não consegui achar informações sobre se eram ou não), eles jamais serão agora. Qualquer pregador que tentar convertê-los tem, no máximo, alguns minutos para se apresentar, fazer o contato com a pessoa, ganhar sua confiança, explicar os princípios da religião que está oferecendo, e convencê-los a adotá-la. Após isso, eles se esquecerão de tudo e ele terá que começar tudo de novo. E se a religião requer qualquer tipo de ritual ou comportamento que se repita, isso está fora de questão - alguns minutos após sua conversa, eles terão esquecido completamente de que ela aconteceu. Deus os condenará por isso? Assumindo que estas pessoas não eram religiosas, estão agora condenadas ao Inferno porque suas almas estão presas num loop eterno de química cerebral?

Indo direto ao ponto, como essa condição é compatível com algo como a alma em primeiro lugar? Como um pesquisador disse, "as memórias de uma pessoa definem o seu eu" (Persinger 1987, p. 53). Sem memória, a identidade de uma pessoa fica altera de forma irrevogável. Os efeitos desta condição são consistentes com a predição materialista de que a mente está unificada com o cérebro, mas parece consideravelmente mais difícil de se encaixar com o dualismo.

Desconexão Calosa

Nossa consciência é normalmente contínua em dois pontos: é contínua no espaço (existe exatamente uma consciência em cada corpo) e no tempo (cada corpo tem exatamente uma consciência por vida). Isso é o que devíamos esperar se a alma existisse. Afinal, não poderíamos ser julgados de forma justa pelas ações do nosso corpo se fôssemos apenas uma de muitas presenças habitando-o e lutando por seu controle, nem poderia ser uma pessoa idosa tida como responsável pelos pecados de sua juventude, ou vice-versa, se a consciência que possuímos por toda nossa vida não é a "mesma" consciência a cada ponto em nossa vida.

No entanto, a condição chamada de amnésia pura prova que é possível que um dano cerebral crie uma consciência que não é contínua no tempo. Que tal uma consciência que não é contínua no espaço? Pode um distúrbio cerebral produzir múltiplas consciências dentro de um único corpo?

Para os propósitos deste ensaio, transtorno de personalidade múltipla (ou transtorno de identidade dissociativa, como a American Psychiatric Association o chama) não será considerado. É ainda uma questão de considerável controvérsia se este transtorno sequer existe (ver Piper 1998) e ainda que exista, pode ser puramente de natureza psicológica (Carroll 2002). Para o argumento da unidade mente-cérebro, somente condições definidas e causadas por dano neurológico físico serão vistos.

Acontece que existe uma condição assim - não tão bem conhecida como o transtorno de personalidade múltipla, mas é ainda mais revelador da forma que nosso cérebro, e portanto nossa consciência, é organizada. Esta síndrome é geralmente conhecida como desconexão calosa.

O cérebro humano é dividido em dois hemisférios, o esquerdo e o direito. Estes hemisférios são imagens espelhadas um do outro, e realizam muitas das mesmas funções. Por exemplo, cada hemisfério recebe entrada sensorial para, e controla movimentos de um lado do corpo. No entanto, há também certa especialização. Por exemplo, na maioria das pessoas, a linguagem é controlada inteiramente pelo hemisfério esquerdo. Para que possam trocar informações um com o outro, os dois hemisférios são conectados por um feixe de fibras nervosas chamada de corpo caloso.

No entanto, em algumas pessoas, o corpo caloso está danificado ou removido. Algumas vezes isto ocorre acidentalmente, como resultado de danos como um derrame; em outras é feito deliberadamente, como resultado de cirurgia. A razão mais comum para tal procedimento é tratar epilepsia severa: cortar o corpo caloso impede que ataques - tempestades de atividade neural descoordenada - que começam num lado do cérebro se espalhem para o outro, e assim garante ao paciente certo alívio.

No entanto, fazê-lo tem um estranho efeito colateral que fornece uma compreensão da natureza da consciência. Como dito antes, cada hemisfério recebe entrada sensorial de um lado do corpo apenas. (Devido a um capricho da evolução, nossos cérebros têm suas conexões cruzadas - o hemisfério esquerdo controla o lado direito do corpo, e vice-versa.) No entanto, quando percebemos algo do lado esquerdo do corpo, essa informação sensorial normalmente viaja para o hemisfério direito e então através do corpo caloso para a esquerda, que poderá verbalizar e descrever o que foi percebido. Mas o que acontece se essa conexão é removida?

Estudos têm descoberto repetidamente que, se um paciente com desconexão calosa tem seus olhos vendados e tiver um objeto posto em sua mão esquerda, eles não conseguirão identificá-lo ou descrevê-lo (Heilman 2002, p. 128). A informação sensorial recebida pelo hemisfério direito não pode ser transferida para os sistemas de linguagem do esquerdo. No entanto, como o hemisfério direito controla movimentos do lado esquerdo do corpo, incluindo a mão esquerda, a pessoa conseguirá usar essa mão para desenhar o objeto, ou escolhê-lo entre um grupo de objetos similares, se lhe pedirem (Newberg e D'Aquili 2001, p. 23; Feinberg 2001, p. 92) - mesmo enquanto não conseguirem explicar o que estão fazendo ou por quê. Mas existem sintomas ainda mais importantes de desconexão calosa.

Uma coisa que o hemisfério direito controla é certos tipos de emoção. Se uma imagem com fortes associações emocionais é projetada apenas para o campo visual esquerdo, para que o sinal visual só possa viajar para o hemisfério direito, uma pessoa com desconexão calosa irá experimentar a resposta emocional apropriada. Mas se lhe perguntarem por que elas estão sentindo isso, a pessoa não vai ficar sem ter o que dizer. Em vez disso, surpreendentemente, elas darão uma razão que é lógica, mas completamente sem relação alguma à verdadeira causa. Como Andrew Newberg e Eugene D'Aquili escreveram,

"Um paciente com cérebro separado ao ver uma foto de Hitler somente no hemisfério direito, por exemplo, pode exibir expressões faciais indicando raiva ou desgosto. Mas quando lhe pedem pra explicar essas emoções, o paciente irá muitas vezes inventar uma resposta, tipo 'Eu estava pensando numa ocasião em que alguém me deixou irritado'" (Newberg e D'Aquili 2001, p. 23)

Kenneth Heilman traz outro exemplo mais concreto, escrevendo sobre a pesquisa do Dr. Michael Gazzaniga e seus colegas. Em um experimento, eles mostraram imagens sexualmente sugestivas para uma mulher com desconexão calosa, exibindo-as apenas na metade esquerda de uma tela de forma que somente seu hemisfério direito as perceberia. A mulher dava risadinhas e se enrubecia, mas quando lhe perguntavam por que, ela respondia que esta pensando em algo constrangedor. (Heilman 2002, p. 129).

Estas pessoas estão mentindo? Em certo sentido, talvez; mas parece claro que não há intenção consciente de enganar. Em vez disso, pesquisadores concluíram, o que está havendo é que o hemisfério direito, ao ver uma imagem com fortes conotações emocionais, gera uma resposta apropriada. No entanto, devido à desconexão calosa, não pode transmitir os dados sensoriais associados para o hemisfério esquerdo e seus centros de linguagem. O hemisfério esquerdo percebe uma mudança no estado corporal, mas não sabe por que - e então ele "preenche" os detalhes que faltam, fabricando uma razão lógica para a reação emocional. Isto acontece num nível subconsciente, de forma que a pessoa genuinamente acredita nas explicações verbais que eles fornecem. Na linguagem da psicologia, esse processo de preenchimento, de invenção inconsciente é chamado de confabulação.

Mas há uma implicação significativa a se extrair desses experimentos. Claramente, os hemisférios direitos dessas pessoas estão a par de seu ambiente, já que podem gerar a resposta emocional apropriada para um estímulo. Mas com a mesma clareza, seus hemisférios esquerdos não sabem de algumas coisas que seus hemisférios direitos sabem. Resumindo, as desconexões calosas dessas pessoas produziram duas consciências separadas - duas esferas distintas de sensibilização - em suas mentes.

Há uma manifestação ainda mais impressionante de desconexão calosa que suporta esta conclusão. Ainda que o hemisfério direito não tenha acesso aos centros de linguagem e, portanto não pode falar, ele pode pronunciar palavras arranjando blocos de letras pelo tato. Em um estudo de pacientes com separação cerebral, perguntaram a um paciente qual era sua profissão ideal. Verbalmente (i.e., usando seu hemisfério esquerdo), o paciente respondeu que ele gostaria de ser um desenhista. No entanto, com sua mão esquerda (i.e., usando o hemisfério direito), ele formou as palavras "corrida de automóveis" (Hock 2002, p. 8).

Andrew Newberg and Eugene D'Aquili concluem desses resultados:

"A pesquisa mostra que em casos de separação cerebral, o cérebro gera o que parecem ser duas consciências separadas. Pesquisas em pacientes com cérebro separado levaram o cientista cerebral e ganhador do Nobel Roger Sperry a concluir, 'Tudo que temos visto indica que a cirurgia deixou essas pessoas com duas mentes separadas, ou seja, duas esferas separadas de consciência. O que é experimentado no hemisfério direito parece se localizar totalmente fora do domínio do esquerdo'" Newberg e D'Aquili 2001, p. 22-23)

Um ateu pode muito bem perguntar como esta evidência pode ser reconciliada com o dualismo. Claramente nestes pacientes com separação cerebral, as diferentes metades de seus cérebros têm acesso a informações diferentes e podem até emitir opiniões diferentes. Mas sob a hipótese da alma, isto é muito mais difícil de explicar. Presume-se que a alma não tem seus próprios caminhos internos de compartilhar informação, que podem ser danificados ou desconectados. Se uma parte da alma sabe o que está acontecendo, ela como um todo deveria saber. Se uma parte da alma acredita numa certa coisa, toda ela deveria acreditar. O próprio Descartes escreveu que a alma era indivisível por natureza, que não faria sentido falar de "meia-alma" (Feinberg 2001, p. 107). Mas os fatos mostram que este não é o caso.

Síndrome da Mão Alienígena

As duas condições acima derrubam o senso comum de que cada humano possui uma identidade simples e unificada. Amnésia pura oblitera nosso senso de nós mesmos como contínuos através do tempo, cortando uma pessoa em vários "eus" evanescentes, e os efeitos da desconexão calosa sugerem que há múltiplas esferas de consciência vagando em nossas mentes, que normalmente não percebemos porque elas normalmente se comunicam sem problemas entre si. Alguns experimentos parecem até mostrar que essas esferas podem ter desejos diferentes entre si. No entanto, há outra síndrome que demonstra de uma forma bastante bizarra que não só essas esferas de consciência existem, mas que o conflito envolve muito mais do que mera percepção sensorial. Estas esferas discretas dentro do nosso cérebro podem ter emoções e pensamentos diferentes - o que é provado pela extraordinária condição chamada de síndrome da mão alienígena.

Na clássica comédia de humor negro de Stanley Kubric, Dr. Strangelove, o personagem-título é atingido por um distúrbio bizarro - uma de suas mãos não o obedece. Ela tenta fazer saudações nazistas em momentos inapropriados, até tenta estrangulá-lo em uma ocasião, e ele é muitas vezes forçado a usar a sua outra mão para impedi-la. Diz-se que a verdade é às vezes mais estranha que a ficção, mas neste caso, a verdade é igualmente tão estranha quanto, porque a doença do Dr. Strangelove realmente existe.

"Há mais de cinquenta anos atrás uma mulher de meia idade entrou na clínica de Kurt Goldstein, um neurologista de fama mundial com ótima técnica de diagnóstico. A mulher parecia normal e conversava fluentemente; de fato, nada estava obviamente errado nela. Mas ela tinha uma extraordinária reclamação - de vez em quando sua mão esquerda voa até sua garganta e tenta estrangulá-la. Ela várias vezes teve de usar a mão direita para lutar com a esquerda... algumas vezes até teve que sentar sobre a mão assassina, tamanha a vontade que tinha de acabar com sua vida." (Ramachandran 1998, p. 12)

A explicação óbvia era de que ela era mentalmente perturbada e estava fazendo isso consigo mesma, e realmente este foi o diagnóstico de vários médicos que a examinaram antes. Mas o Dr. Goldstein não encontrou sinais de histeria ou outros distúrbios mentais - parecia mesmo que sua mão esquerda tinha vontade própria - e então ele propôs uma explicação radicalmente diferente. Ele teorizou que o hemisfério direito da mulher (que controla o lado esquerdo do corpo, incluindo a mão esquerda) tinha "latentes tendências suicidas" (ibid.). Numa pessoa normal, o hemisfério esquerdo, mais racional, as inibiria e impediria de virarem ações; mas se esta mulher sofrera dano ao seu corpo caloso, essas mensagens inibitórias não poderiam mais ser transmitidas para a outra metade do seu cérebro, e o hemisfério direito tentaria agir sobre seus desejos irracionais autodestrutivos.

Logo após visitar o Dr. Goldstein, a mulher morreu (não, não foi por se estrangular). Uma autópsia confirmou as suspeitas do doutor: ela sofrera um derrame que danificara seu corpo caloso e removeu a conexão entre os hemisférios, removendo o freio que seu hemisfério esquerdo pusera sobre as ações do direito.

Hoje, dados adicionais têm suportado a explicação do Dr. Goldstein. É agora sabido que o hemisfério direito é principalmente responsável por produzir e mediar emoções negativas, como raiva e tristeza; pacientes com dano no hemisfério direito muitas vezes perdem a capacidade de sentir essas emoções e se tornam inapropriadamente alegres e eufóricos (isto será discutido em mais detalhes abaixo). Por mais assustador que pareça, a desconexão calosa da mulher revelara que havia duas esferas separadas de consciência dentro de sua mente que sentiam e desejavam coisas completamente diferentes.

Mais uma questão surge: Se metade do cérebro desta mulher se tornara suicida, quem ou o quê restou? Qual foi a parte dela que não queria cometer suicídio e combatia os impulsos de sua mão "possuída"?

A resposta, é claro, é o seu hemisfério esquerdo racional, desconectado do direito e, portanto, não afetado pelas emoções negativas que ele produzia. Como o hemisfério esquerdo controla a linguagem, ele - e ela - não conseguia expressar choque e horror sobre o comportamento irracional do outro lado de seu corpo. Mas o que isto implica para as pessoas normais é que nós - a parte que pensamos como "nós mesmos" - é somente o hemisfério esquerdo. Essa é a parte que cria uma narrativa para explicar nossas ações e se comunica com o resto do mundo. Mas nesse tempo todo, há outra consciência, dentro de nossas cabeças - o silencioso hemisfério direito. Incapaz de controlar a linguagem, não pode se fazer perceber diretamente, e em qualquer caso se comunica com o esquerdo tão facilmente que não o percebemos como uma entidade separada. Mas quando o dando caloso traz essa presença vigilante e muda para a superfície, os resultados podem ser avassaladores.

Outros casos de síndrome da mão alienígena suportam esta explicação. Enquanto esta síndrome pode acontecer em qualquer mão, dano ao corpo caloso produz quase que exclusivamente mãos alienígenas canhotas. (Dano aos lobos frontais do cérebro, que serão discutidos em mais detalhes depois, podem produzir ou uma mão alienígena esquerda ou direita.) Além disso, exatamente como se esperaria se a SMA resultasse da desinibição de um hemisfério direito mais emocionalmente volátil, mãos alienígenas raramente são úteis ou agradáveis. Em vez disso, a maioria faz ações que variam do meramente travesso para o totalmente agressivo, até as mais assustadoras. Frequentemente elas fazem o oposto do que a mão conscientemente controlada pretende. Há casos registrados de mãos alienígenas que respondem o telefone e então se recusam a atender o contato, que derrubam bebidas, que atiram violentamente objetos aleatórios. Algumas vezes um paciente pode abrir uma gaveta com sua mão boa apenas para que a sua mão ruim a feche; às vezes ele pode abotoar uma camisa com uma mão enquanto a outra segue atrás, desabotoando-a. Em um caso registrado, a mão alienígena tentou rasgar dinheiro (Feinberg 2001, p. 94-97).

O mais perturbador de tudo é que algumas mãos alienígenas são genuinamente violentas. Estrangulamentos como os acima realmente ocorrem. Em outro caso, o Dr. Michael Gazzaniga descreve um paciente cuja mão alienígena agarrou sua esposa e a sacudiu violentamente, enquanto sua direita tentou ajudá-la a por a esquerda sob controle. Em outra ocasião, o doutor estava visitando o mesmo paciente, jogando ferraduras com ele no quintal, quando a mão esquerda do paciente apanhou um machado encostado ao lado da casa.

"Por ter sido inteiramente provável que o hemisfério direito mais agressivo pudesse estar no controle, eu discretamente saí de cena - não querendo ser a vítima para o caso de teste de qual meio-cérebro a sociedade pune ou executa" (Feinberg 2001, p. 98).

Como o bom doutor astutamente percebeu, haveria um problema real de quem era responsável se a mão alienígena de seu paciente conseguisse realizar suas intenções aparentemente malignas. Mas esse problema não seria limitado meramente a agentes mortais da justiça. Como Deus julgaria um caso assim?

O dualista precisa responder à pergunta de como tudo isto é compatível com a existência da alma. Nossas almas residem apenas em nossos hemisférios esquerdos? Então quem ou o quê vive no direito? Ou os dualistas afirmariam que a alma simples e unificada pode de alguma forma se tornar fraturada, separada em duas consciências distintas, por dano ao cérebro físico?

Paralisia e Negação

Imagine que você é um médico, indo pra lá e pra cá numa ala de neurologia de um hospital. Você entra em um dos quartos para conferir um paciente idoso que recentemente sofreu um grave AVC isquêmico no hemisfério direito de seu cérebro. Embora tenha sobrevivido com a ajuda de anticoagulantes, já estava tarde demais para impedir o estrago. Os centros motores de seu hemisfério direito foram destruídos, e o paciente está com a metade esquerda de seu corpo totalmente paralisada. Ele jamais voltará a ficar de pé ou andar, e ficará confinado a uma cama ou uma cadeira de rodas pelo resto de sua vida. Mas, mesmo assim, ele parece estar de bom humor. Ele está aceitando a notícia extremamente bem - talvez até bem demais - reagindo a ela com uma leveza incongruente.

Você cumprimenta o paciente e lhe dá bom dia. "Como você se sente?", você pergunta.

"Bem", ele diz animadamente.

"Você sabe por que está no hospital?", você pergunta.

O paciente admite ter tido um ataque. "Foi isso o que os médicos me disseram, afinal. Fizeram todos os exames e raios-x. Acho que não tenho razão pra duvidar deles."

"Mas você se sente melhor agora?"

"Sim, bem", ele concorda.

Algo não está certo aqui; uma suspeita começa a crescer em sua mente. Pode ser que o homem se irrite, mas você tem que saber, então pergunta, "Consegue caminhar?"

"É claro que posso", diz o paciente com um leve tom de petulância, como se não entendesse por que você está fazendo uma pergunta tão boba.

"E suas mãos? Consegue usá-las?"

"É claro."

"Ambas têm a mesma força?"

"Sim, é claro que têm", ele diz friamente. Este homem não movia sua mão esquerda nem ficou de pé desde o seu ataque; ele tem ficado numa cama ou cadeira de rodas desde que chegara ao hospital.

Ainda que essa terrível suspeita esteja essencialmente confirmada, você decide forçar as coisas só mais um pouquinho. "Poderia tocar o seu nariz com sua mão direita para mim?", você pergunta.

Ele concorda e assim o faz sem problemas.

"E quanto a sua mão?" você então pergunta. "Pode tocar seu nariz com sua mão esquerda?"

"Claro que posso". A mão esquerda paralisada não se mexe.

"Você o está tocando agora?"

"Sim, é claro que estou." Sua mão ainda não se mexera.

"Você consegue de fato se ver tocando seu nariz com a mão esquerda?", você pergunta.

"Mas é claro que consigo", ele diz irritado. "Está bem na frente do meu rosto."

Você decide perguntar só mais uma coisa. "Pode bater palmas para mim, por favor?"

O paciente te olha um tanto intrigado, mas de forma resignada levanta sua mão direita e a agita na frente dele, como se estivesse batendo palmas com uma mão esquerda imaginária. Sua mão esquerda real ficou onde estava, completamente paralisada. (adaptado de Ramachandran 1998, p. 128-129, onde uma conversa praticamente idêntica ocorre)*

Poucos distúrbios neurológicos nos forçam a confrontar a fragilidade do senso de si mais do que a condição chamada anosognosia. A palavra em grego basicamente significa "desconhecimento da doença", e é exatamente o que esta síndrome é: uma pessoa que sofreu algum dano grave e incapacitante mas que permanece inabalavelmente alheio - e negando veementemente quando perguntado - ao fato de que há algo errado com eles. A anosognosia real não é uma simples confusão; o paciente literalmente não pode ser convencido da realidade de sua condição (Feinberg 2001, p. 21). Apesar de a anosognosia estar mais comumente associada à paralisia parcial após um ataque, tal como no exemplo acima, ela ocorre em outras condições também. Alguns pacientes que sofrem de tumores cerebrais malignos e outras condições fatais irão negar veementemente o diagnóstico de seus médicos, insistindo que se sentem bem (Ramachandran 1998, p. 143). Há até um exemplo documentado de um paciente que era incapaz de reconhecer que estava cego (Heilman 2002, p. 133).

O que causa a anosognosia? Os advogados do dualismo e outros podem alegar que isto é puramente psicológico, um mecanismo de defesa freudiano utilizado por pessoas encarando uma verdade terrível demais para aceitar. Mas outros pesam contra essa explicação.

Primeiro, vítimas de ataque com anosognosia podem negar sua paralisia, mas normalmente admitem livremente haver outras coisas erradas com eles. Como no exemplo acima, eles quase nunca negam que de fato tiveram um ataque. Dr. Vilayanur Ramachandran nos conta de uma paciente paralisada e em negação, a quem ele ofereceu um doce caso ela conseguisse amarrar seus cadarços, apenas para tomar um sermão dela. "Você sabe que eu sou diabética, doutor. Não posso comer doce!" (Ramachandran 1998, p. 142)

Mas muito mais importante, e muito mais destrutiva para a teoria freudiana, é que a negação é quase que exclusivamente associada à paralisia do lado esquerdo - em outras palavras, com danos ao hemisfério direito (Feinberg 2001, p. 51). Pacientes com danos ao hemisfério esquerdo e paralisia do lado direito quase nunca passam por negação, apesar do fato de que supostamente eles teriam tanta necessidade psicológica quanto. Esta forte associação entre negação e dano a uma região específica do cérebro sugere que algo nessa região está fazendo alguma coisa crítica para atualizar a imagem mental do próprio corpo de alguém.

No entanto, existe uma terceira evidência, muito poderosa - uma que decisivamente descarta as teorias freudiana e dualista, e mostra claramente como este bizarro distúrbio, alem do senso de si em geral, surge de e está indissociavelmente unificado ao funcionamento de nossos cérebros físicos.

Em 1987, um neurologista italiano chamado Eduardo Bisiach, ao realizar exames numa paciente em negação, borrifou água fria em sua orelha esquerda, um teste da função dos nervos que controlam o equilíbrio. Mas o experimento teve um surpreendente efeito colateral: logo após o exame, quando perguntada se estava paralisada, a paciente calmamente respondia que não podia usar o braço esquerdo! A mera introdução de água fria em sua orelha efetuou uma cura completa, ainda que temporária, de sua negação.

O Dr. Ramachandran realizou este experimento em outra paciente com a mesma condição, e obteve o mesmo espantoso resultado. Ele inseriu água fria nas orelhas de uma paciente com paralisia do lado esquerdo que negava seriamente sua paralisia e insistia que seus braços eram igualmente fortes. Irrigar o canal auricular direito não teve efeito algum; ela continuava a insistir que estava bem. Mas quando ele tentou irrigar seu canal esquerdo:

Após [inserir a água], perguntei de novo, "Como está se sentindo?"
"Minha orelha está fria."
"E quanto aos seus braços? Consegue usar os seus braços?"
"Não", ela respondeu, "meu braço esquerdo está paralisado."

Aquela foi a primeira vez que ela usou aquela palavra em três semanas desde o seu ataque.

"Sra. Macken, há quanto tempo você está paralisada?"
Ela disse, "Oh, o tempo todo, esses dias todos."
(Ramachandran 1998, p. 145-146)

Doze horas depois, um de seus alunos repetiu a pergunta:

"Você se lembra do Dr. Ramachandran?"
"Oh sim, era aquele doutor indiano."
"E o que ele fez?"
"Ele pegou um pouco de água gelada e colocou no meu ouvido, e doeu."
"E o que ele lhe perguntou?"
"Me perguntou se eu podia usar os meus dois braços."
"E o que você disse a ele?"
"Eu disse que estava bem."
(p. 146)

Mas este enigma se torna ainda mais complexo. Às vezes, negação não é permanente, mas sim se resolve espontaneamente à medida que o paciente se recupera. Mas o que acontece quando se pergunta a um paciente assim sobre suas negações anteriores? Dr. Ramachandran perguntou a um:

"Você se lembra quando lhe perguntei sobre os seus braços? O que você disse?"
"Te disse que meu braço esquerdo estava paralisado."
"Você se lembra que eu te visitei várias vezes? O que você dizia em todas elas?"
"Eu te dizia que meu braço esquerdo estava paralisado."
(Na verdade ela tivera me dito a cada vez que o braço dela estava bem.)
"...Pense com clareza. Você se lembra de ter me ditto que seu braço esquerdo estava bem, que não estava paralisado?"
"Bem, doutor, se eu disse isso, então isto implica que eu estava mentindo. E eu não sou mentirosa."
(p. 149-150)

Neste ponto deveria estar claro que este distúrbio vai muito além de qualquer mecanismo de defesa psicológico; vai além até mesmo de uma simples falha do cérebro em atualizar a imagem corporal de si mesmo. Quando um paciente em negação entra em remissão, é como se eles "reescrevessem seu roteiro" completamente para tornar seu comportamento passado compatível com seu conhecimento atual de sua paralisia. Quando a negação retorna, seu roteiro interno é novamente reescrito à luz de sua crença renovada. É como se, como escreve o Dr. Ramachandran, "tivéssemos criado dois seres humanos conscientes separados que eram mutuamente amnésicos", uma "isolação parcial de uma personalidade da outra... ainda que ocupem um único corpo" (p. 146-147, com ênfase acrescentada).

Então como pode esta estranha condição - a divisão de uma pessoa em duas, uma a par do que aconteceu a ela e a outra enganada, e cada uma desconhecida da outra - ser explicada? Teorias freudianas, como já mostrado, não serão suficientes. Nem pode o dualismo teísta ter esperanças de explicar isto adequadamente. Se a alma guarda nossas memórias (um componente crucial da identidade e um requisito para a continuidade da consciência - afinal, não devemos nos lembrar de nossas vidas terrestres ao chegarmos ao além?), como pode algo tão mundano como um esguicho de água fria no ouvido alterar radicalmente essas memórias? Mesmo que se algum defeito corporal impede a informação sobre a paralisia de alcançar a alma - o que é muito improvável, já que estas pessoas podem claramente ver os seus membros não se mexerem - uma vez que ela tenha alcançado a alma, como pode ela ter se perdido novamente tão rápido, tão logo passe o efeito do tratamento com água fria? Ao contrário, somente através do materialismo e do reconhecimento de que nossa mente está unificada com, e sob a mercê das falhas do cérebro físico, é que este fenômeno pode ser explicado de forma satisfatória.

E uma teoria não-dualista do funcionamento da mente humana pode oferecer uma explicação assim. Ao observar que a anosognosia resulta quase que exclusivamente de danos ao hemisfério direito, Dr. Ramachandran tem proposto que as duas metades do nosso cérebro servem a diferentes papeis no que diz respeito a nossas visões de mundo. Sua hipótese é a de que o trabalho do hemisfério esquerdo é o de criar uma perspectiva coerente: processar os dados que constantemente recebe dos sentidos e integrá-los todos em uma visão de mundo consistente. Mas quando dados inconsistentes chegam - informação que conflite com o que já sabemos ou acreditamos - eles precisam ser tratados. Uma opção, é claro, é derrubar completamente a estrutura existente de crença e recomeçar tudo do zero; mas se fizéssemos isto para cada mínima discrepância que encontrássemos, seria impossível de funcionarmos no mundo. Portanto, o hemisfério esquerdo funciona como um preservador do status quo, defendendo o sistema de crenças de uma pessoa ao descontar evidências contraditórias ou forçando-as para a plataforma existente. Hipotetiza-se que o hemisfério direito, por contraste, seja um "advogado do diabo", buscando problemas e inconsistências maiores no status quo e forçando uma reavaliação de crenças pré-existentes se inconsistências suficientes surgirem. (uma possível explicação para o porquê de o tratamento com água fria funcionar é a de que pode estimular nervos ligados ao hemisfério direito)

Enquanto isto pode ser uma supersimplificação, esta hipótese não é insustentada. Em uma experiência simples usando espelhos que criassem uma discrepância entre o que um indivíduo de teste sentia o seu braço fazer e o que ele o via fazendo, uma região do hemisfério direito próxima ao lobo parietal direito se excitou num exame cerebral - independentemente de a discrepância ter acontecido com a mão esquerda ou a direita (p. 142).

* Esta forma de negação é mais grave. Nem todas as pessoas com a síndrome criam confabulações tão gritantes; é mais comum que dêem desculpas ou racionalizações de por que não caminharem ou por que seu braço paralisado não está se mexendo - eles podem dizer que o membro está "com preguiça" ou "um pouco cansado" (Feinberg 2001, p. 21), ou que "dói mexer esse braço", ou "os médicos tem me examinado o dia todo e estou cansado, então não quero movê-lo" (Ramachandran 1998, p.129-130). De maneira oposta, na outra ponta do espectro, algumas pessoas em negação afirmam que o membro paralisado conectado ao seu corpo na verdade pertenceria a outra pessoa, uma condição chamada de somatoparafrenia (p. 131). (Pessoas assim podem dizer coisas como "é o braço do meu irmão"). Em todos os casos, no entanto, essas pessoas não terão limites em racionalizar qualquer evidência contrária ou apegar-se a qualquer explicação, não importa o quão forçada, em vez de admitir o óbvio. A relevância em potencial para a crença teísta é interessante. Será que alguns fundamentalistas e membros de cultos possuem hemisférios direitos subdesenvolvidos? (voltar)

Síndrome de Capgras

O distúrbio chamado de síndrome de Capgras é "uma das mais raras e pitorescas síndromes da neurologia" (Ramachandran 1998, p. 161). O paciente, que em qualquer outro respeito é perfeitamente racional e lúcido, de repente começa a insistir que um amigo próximo ou um ente querido - um pai, esposa, até um animal de estimação em alguns casos - foi substituído por um impostor que se parece exatamente como o indivíduo perdido. Enquanto essa condição possa ocorrer espontaneamente naqueles com esquizofrenia ou doenças degenerativas como Alzheimer (Feinberg 2001, p. 33), é muitas vezes encontrada em pessoas que sobreviveram a algum tipo de traumatismo craniano.

Como se explica essa condição? A resposta está no sistema límbico, um conjunto de estruturas nas profundezas do cérebro o qual é responsável pela ativação emocional. Quando a informação vinda dos olhos chega até o cérebro, é transmitida para o caminho de reconhecimento de objeto, nos lobos temporais, para determinar o que uma pessoa está olhando - um rosto, uma casa, um animal - e essa informação é por sua vez repassada para a amígdala, o portal para o sistema límbico, para determinar o significado emocional do objeto. Se o objeto é o rosto de um ente querido, o sistema límbico gera o "brilho" emotivo apropriado para nos avisar de que se trata realmente daquela pessoa.

Mas e se algum dano cerebral desconecta o caminho entre o sistema visual e a amígdala? Nesse caso, uma pessoa ainda seria capaz de reconhecer rostos, mas não experimentaria as emoções normalmente associadas a elas. Essencialmente, o cérebro diz para si próprio algo como, "se esta é a minha mãe, por que sua presença não me faz sentir que estou com a minha mãe?" (Ramachandran 1998, p. 162) - e a única forma que ele pode extrair sentido desta discrepância é produzir a ilusão de Capgras, assumir que a pessoa apenas lembra alguém importante para o visualizador.

Pode ser desconcertante perceber que as emoções prestam um papel tão importante no processo de julgamento. Pode-se muito bem perguntar, por que esta desconexão produz uma ilusão tão grave? Mesmo que o paciente não possa emocionalmente se sentir íntimo a outras pessoas, elas não podem ainda assim reconhecê-las, pelo menos intelectualmente? E sob a doutrina da alma, uma consciência racional imaterial não sujeita às falhas do cérebro, pode-se esperar que isso fosse o caso. Mas o materialismo derruba o senso comum de um "homúnculo" - uma pessoinha vivendo dentro do cérebro, recebendo seus inputs e dirigindo suas ações como um controlador de tráfego aéreo. Nós somos os nossos cérebros, e seus defeitos são defeitos em nossas mentes.

Mas o que a síndrome de Capgras tem a ver com uma falha no senso de identidade? Acontece que essa condição tem outros efeitos colaterais, muito mais surpreendentes.

O "brilho" emocional produzido pelo sistema límbico faz mais do que fornecer reconhecimento momento-a-momento de rostos significativos. Acontece que este brilho é um componente crucial da formação e associação da memória de longo prazo.

Por exemplo, suponha que você vá até o armazém um dia e um amigo te apresenta a uma nova pessoa - João. Você forma uma memória desse episódio e a enfia em seu cérebro. Duas semanas se passam e você topa com o João na biblioteca. Ele lhe conta uma história sobre seu amigo em comum, vocês dão boas risadas e seu cérebro arquiva uma memória sobre este segundo episodio. Mais algumas semanas se passam e você encontra o João novamente em seu escritório - ele é um pesquisador médico e está usando um jaleco branco - mas você o reconhece instantaneamente de encontros passados. Mais memórias do João são criadas durante esse tempo de forma que agora você tem na sua mente uma "categoria" chamada João. Esse retrato mental se torna progressivamente refinado e enriquecido a cada vez que você encontra o João, auxiliado por um senso crescente de familiaridade que cria um incentivo para ligar as imagens e os episódios. Eventualmente você desenvolve um conceito robusto do João - ele conta ótimas histórias, trabalha num laboratório, te faz rir, sabe um bocado sobre jardinagem, e assim por diante. (Ramachandran 1998, p.169)

Mas como o cérebro liga esses episódios disparatados entre si, reconhecendo que o João é a mesma pessoa a cada vez? Como uma analogia, digamos que a memória do cérebro, de forma abstrata, funciona como um sistema de gerenciamento de arquivos de um computador. Toda vez que você encontra alguém, um novo "arquivo" de memória é criado. Como o cérebro sabe que esses novos arquivos pertencem à mesma "pasta" criada anteriormente junto com memórias anteriores da mesma pessoa?

A resposta está no sistema límbico. O brilho emocional que gera aparentemente funciona como um tipo de fibra percorrendo essas memórias separadas e as amarrando entre si, avisando o cérebro de que pertencem todas à mesma "pasta". Mas e se esse brilho estiver ausente? O cérebro não teria uma forma de associar novas memórias com antigas, e ao encontrar uma pessoa, em vez de adicionar suas memórias do encontro à "pasta" já existente, uma novinha em folha seria criada. Isto levaria à insistência do paciente com Capgras de que as pessoas que encontraram não são seus entes queridos, mas pessoas diferentes que apenas se parecem com eles.

E agora, a pergunta precisa ser feita: você se conta como um "ente querido" para você mesmo? A imagem de seu próprio rosto evoca significância emocional dentro do seu cérebro?

Dr. Ramachandran encontrou a resposta a esta pergunta de forma inesperada enquanto examinava um paciente de Capgras chamado Arthur:

"Eu estava mostrando ao Arthur retratos de si próprio de um álbum de família e apontei para um instantâneo dele tirado dois anos antes do acidente [que resultou nele adquirindo a síndrome de Capgras].
'De quem é esta foto?', perguntei.
'Esse é um outro Arthur', respondeu. 'Ele é igualzinho a mim mas não sou eu.'. Não conseguia acreditar no que ouvi. Arthur deve ter detectado a minha surpresa já que ele então reforçou seu ponto dizendo, 'Está vendo? Ele tem um bigode. Eu não.'" (p. 172)

Esta ilusão não acontecia quando Arthur se olhada num espelho; apesar da sua condição, ele parecia reconhecer que o rosto no espelho não poderia ser de ninguém mais senão seu. Mas a tendência em se "duplicar" aparecia em outras ocasiões. Em um momento, ele disse, "Sim, meus pais enviaram um cheque, mas mandaram prum outro Arthur", e um dia ele chegou a perguntar para sua mãe, "Mãe, se o Arthur real um dia retornar, você promete que ainda irá me tratar como um amigo e me amar?" (IBID.)

Não há uma explicação dualista da síndrome de Capgras que possa resolver isto. A condição de Arthur e outros como ele nos mostra que o senso de si e de identidade está unificada com o cérebro, e pode ser rompida por um dano ao cérebro. Deixemos o Dr. Ramachandran resumir:

"Como pode um ser humano são que é perfeitamente inteligente em outros aspectos vir a se considerar como duas pessoas? Parece haver algo inerentemente contraditório quanto a separar o Eu, o qual é por sua própria natureza unitário. Se eu começasse a me considerar como varias pessoas, para qual delas eu faria planos Qual delas é o eu 'real'?

Filósofos têm discutido por séculos que, se há qualquer coisa sobre nossa existência que esteja completamente além do questionamento, é o simples fato de que 'eu' existo como um ser humano singular que existe no espaço e no tempo. Mas até mesmo essa fundação axiomática básica da existência humana é posta em xeque por Arthur." (p. 172-173)

Unidade de Personalidade

O Estranho Caso de Phineas Gage

A estranha história de Phineas Gage é um dos casos clássicos da neurologia, e um dos primeiros que levou os cientistas a suspeitarem de que pode haver regiões do cérebro especificamente devotadas à personalidade e ao raciocínio. O terrível acidente que este homem sofreu, ainda que trágico, também serviu para trazer luz ao funcionamento interno da mente e revelar o quão frágil é a construção neurológica chamada si em todos nós.

Era o verão de 1848 na Nova Inglaterra, e a Rutland e Burlington Railroad Company estava construindo novos caminhos para os seus trens. O caminho proposto passava por um terreno irregular, e pedregulhos tinham de ser explodidos para limpar o caminho para os trilhos serem dispostos.

A equipe de construção supervisionando a explosão era liderada por um certo Phineas Gage, um homem de 25 anos descrito por seus superiores como "o mais eficiente e capaz trabalhador já contratado por eles" (Macmillan 2000, p. 65). Dizia-se dele ainda que tinha "hábitos moderados" e "uma considerável energia de caráter", e "era considerado por aqueles que o conheciam como um perspicaz e esperto homem de negócios, muito enérgico e persistente ao executar todos os seus planos de ação"(IBID.). Em resumo, não se podia achar alguém melhor para liderar a equipe de construção.

Para explodir, a equipe escavaria uma abertura estreita na rocha, enche-la pela metade com pólvora, inserir o estopim, e então tapar o resto do buraco com areia, o que iria conduzir a explosão para o lado de dentro, para a rocha que se pretendia destruir.

Uma vez acrescentada a areia, ela tinha de ser socada com uma barra de ferro, então o fusível era aceso e a explosão seguia. Gage e sua equipe estavam executando exatamente esse procedimento quando o engano fatal ocorreu.

Para uma abertura em particular, a pólvora fora colocada o fusível aceso, mas a areia ainda não tivera sido colocada. No entanto, antes que pudesse sê-la, Gage se distraiu e sem pensar socou a própria pólvora. Seu socador de ferro produziu faíscas, a pólvora se acendeu, e a explosão - canalizada e dirigida pelas paredes estreitas da abertura - voou para o rosto de Phineas Gage. O socador de ferro, que estava o tempo todo no buraco, foi propelido como um projétil direto para a sua cabeça.

O socador de ferro, com mais de um metro de comprimento e com um diâmetro de pouco mais de 3cm numa ponta, se afunilando até 1cm na outra, perfurou primeiro a bochecha esquerda de Gage, penetrou a base do seu crânio, atravessou a frente do seu cérebro, e escapou através do topo da sua cabeça, deixando uma horrível ferida na saída. Coberto de sangue e material cerebral, o ferro caiu no chão, mais de 30 metros depois. Gage foi nocauteado pela força do golpe, mas espantosamente, depois se sentou e falou. Ele estava consciente e parecia em pleno domínio de suas faculdades, apesar do terrível ferimento que acabara de sofrer. Seus homens o ajudaram a ir até a cidade para ver um médico.

O doutor que o examinou, Dr. John Harlow, confirmou essa impressão inicial. Phineas Gage estava totalmente coerente; ele não ficou paralítico e não tinha dificuldade em caminhar, falar ou usar suas mãos. Ele perdera a visão do olho esquerdo como resultado de seu acidente, mais por outro lado seus sentidos e faculdades estavam intactos. Ele até conversava com Harlow perfeitamente calmo e racional, apesar do buraco em seu crânio. Sem conseguir acreditar, o doutor ajudou a tratá-lo, e com sua ajuda Gage mais tarde sobreviveu ao ferimento e a uma subseqÜente infecção e febre - um grande feito por si só, numa era anterior aos antibióticos.

No entanto, logo se tornou aparente que Gage não sobrevivera a essa provação intacto. Quase que imediatamente após sua febre ter passado e suas feridas se curarem, mudanças grandes e surpreendentes em sua personalidade começaram a surgir. Essencialmente, ele não era mais o homem que era antes do acidente. Como o Dr. Antonio Damasio escreve:

"E ainda assim este espantoso resultado [Gage sobreviver] some em comparação com a extraordinária virada a qual a personalidade de Gage estava prestes a se submeter. A disposição de Gage, seus gostos e desgostos, seus sonhos e aspirações, tudo iria mudar. O corpo de Gage pode estar vivo e bem, mas há um novo espírito animando-o." (Damasio 1994, p. 7)

O homem que Phineas Gage era antes do seu acidente morreu. Como escreveu um perplexo Dr. John Harlow, ele se tornara "caprichoso, irreverente, dado às mais pesadas profanidades que não eram de seu costume, manifestando pouca deferência por seus companheiros, impaciente diante de conselhos que conflitem com seus desejos, às vezes teimoso, ainda caprichoso e vaciloso, criando muitos planos de coisas futuras, arranjados porém logo abandonados... uma criança em sua capacidade intelectual e manifestações, ele tinha as paixões animais de um homem forte." (quoted in Damasio 1994, p. 8)

Um contraste mais forte com o homem que era antes seria impossível de imaginar - "as alterações na personalidade de Gage não foram sutis" (p. 11). Onde uma vez fora polido, modesto e adorável, ele se tornou bruto, profano e indelicado. Onde uma vez fora responsável e orientado a objetivos, se tornou agora preguiçoso e irresponsável, e conceberia toda a sorte de planos malucos e falharia em seguir qualquer um deles. Onde uma vez tomava decisões sagazes e espertas, parecia agora estar ativamente tentando conduzir-se à ruína por via de instâncias repetidas de mau julgamento. Tão dramática e óbvia foi a mudança que seus ex-amigos tristemente diziam que ele "não era mais o Gage" (quoted in Damasio 1994, p. 8). Seus chefes se recusavam a lhe devolver seu antigo emprego, não porque lhe faltava a técnica, mas porque não tinha mais a disciplina nem o caráter.

Por muitos anos, Gage pegou empregos menores trabalhando em um estábulo ou como condutor de diligência. No entanto, em 1860, ele começou a sofrer ataques inesperadamente. Após isto, seu declínio começou a se acelerar; ele trabalhava como um criado numa fazenda e fazia muitos bicos, mas sempre se mudava rápido, por "[encontrar] algo que não o atendia em todo lugar que tentava" (Macmillan 2000, p. 66). Finalmente, em 21 de maio de 1861, ele sofreu uma série de fortes ataques, entrou em coma, e morreu sem recuperar a consciência.

O crânio de Gage foi exumado após sua morte e se tornou um item de museu, e cento e vinte anos depois, o dr. Damasio e seus colegas decidiram analisá-lo para determinar exatamente onde seu cérebro tivera sido ferido. Construindo um modelo tridimensional em computador de seu crânio, rodaram simulações para determinar o caminho mais provável que a barra de ferro percorreu, baseado nas feridas de entrada e saída, que nunca se curaram totalmente.

O que eles descobriram não foi surpreendente. A região do cérebro de Gage que foi danificada foi uma parte dos lobos frontais chamada de córtex pré-frontal ventromedial - precisamente a parte que hoje se acredita ser crítica para tomada normal de decisão (p. 32). Com esta parte de seu cérebro destruída, ele era incapaz de planejar o futuro, comportar-se de acordo com regras e costumes sociais, ou decidir o curso de ação mais vantajoso. Que ele se comportasse como de fato o fez era de se esperar, e não foi sua culpa nem o resultado de qualquer decisão consciente. Dr. Damasio escreve, "É apropriado dizer... que o livre arbítrio de Gage fora comprometido" (p. 38).

A lição mais importante que podemos tirar do estranho e trágico caso de Phineas Gage é que as regiões frontais do cérebro fazem um papel crucial em determinar a personalidade. Da mesma forma, elas têm um papel crucial em controlar o comportamento, permitindo-nos inibir nossos impulsos imprudentes e conduzir-nos conforme a sociedade espera. Estas funções podem ser desabilitadas quando os lobos frontais são danificados ou destruídos. O caso de Phineas Gage também não é o único registrado. Como o restante desta seção irá mostrar, há muito mais exemplos de pessoas com dano no lobo frontal que exibem sintomas similares: inabilidade de tomar decisões sabias, de se comportar como a lei ou os costumes esperam, e de se encaixar na sociedade como um ser humano normal. Como pode uma hipótese dualista explicar isto? A explosão do ferro naquela manhã de 1848 tirou a alma de Gage da sua cabeça? Uma teoria materialista da mente pode facilmente explicar como os traços de caráter de uma pessoa podem ser alterados por dano físico. Para os modelos dualistas que afirmam que traços de caráter surgem em última análise de um "fantasma" imaterial invulnerável ao dano, estes casos não são explicáveis da mesma forma.

Demência Frontotemporal

Como o caso de Phineas Gage mostra, os lobos frontais do cérebro prestam dois papeis importantes: eles são os centros "executivos" ou regulatórios, controlando o comportamento e inibindo ações inapropriadas, e são componentes vitais do senso de si, dando surgimento aos traços de personalidade que tornam uma pessoa um indivíduo único. E exatamente como a posição materialista prevê, qualquer uma dessas funções pode ser alterada ou eliminada inteiramente por dano neurológico.

Mais evidências para isto vem de um estudo feito pelo Dr. Bruce Miller e colegas para o periódico Neurology, no qual examinaram os efeitos de um distúrbio cerebral genético chamado de doença de Pick, ou demência frontotemporal (FTD), que normalmente ataca pessoas entre 55 e 60 anos. Ainda que similar em muitos aspectos a outras doenças neurodegenerativas tais como o mal de Alzheimer, FTD difere delas ao atacar primariamente os lobos frontais e temporais anteriores, áreas que a neurociência acreditava estarem intimamente ligadas à personalidade e ao senso de si. Os primeiros sintomas da FTD incluem perda de empatia, comportamento egoísta ou indelicado, perda de inibições, e agressividade. (Alzheimer's Society 2000).

FTD do hemisfério esquerdo normalmente causa afasia e deficits de linguagem. Por contraste, seis dos sete pacientes no estudo do Dr. Miller que tiveram FTD do hemisfério direito frontal mostraram mudanças dramáticas de personalidade como um dos primeiros sintomas de sua doença. Estas mudanças alteraram traços de personalidade e preferências em áreas diversas como escolha de comida e vestuário, ideologia política, comportamento social, preferência sexual, e - a mais destrutiva de todas para o dualismo - religião.

O primeiro dos pacientes do Dr. Miller era uma senhora de 54 anos que começou a experimentar perda de discernimento e inibição nove anos antes. Uma vez uma adoradora de roupas de grife e culinária francesa, ela começou a comprar marcas mais baratas de roupas e a comer em restaurantes fast-food. Sua personalidade se tornou "irritável, agressiva e dominadora" (Miller 2001, p. 818), e ela se tornou apática e largou o emprego.

O segundo paciente foi um homem de 67 anos que começara a mostrar sintomas de demência tendo apenas 40 anos. Ele vendera um negócio que possuíra e tentara uma variedade de novos empregos, mas era seguidamente demitido por comportamento irresponsável; uma vez "um individuo crítico e autoconfiante que reconhecia suas próprias falhas" (p. 919), ele agora culpava seus empregados por seu mau desempenho. Suas visões outrora puritanas sobre sexo se tornaram liberais, tolerantes e experimentais, e ele insistia que seus filhos adotassem um estilo de vida "libertino". Aos 57, ele se tornara descuidado, irascível e facilmente irritado, e aos 64 estava totalmente demente.

A terceira paciente era uma mulher de 63 anos que outrora fora uma conservadora bem-vestida. Aos 56, no entanto, se tornara reclusa, anti-social, hostil e indiferente; num momento, passava por um sinal vermelho, batia em outro carro e então despreocupadamente deixava a cena do acidente para fazer compras. Aos 62, sua ideologia política tivera mudado, tornando-se diametralmente oposta as suas crenças anteriores; se tornou uma apaixonada advogada dos direitos animais, discutia publicamente com pessoas que via comprando livros conservadores, começou a usar camisetas e calças folgadas com slogans pró vida selvagem, e deu declarações anti-conservadoras polemicas como "os republicanos deviam ser varridos da Terra" (IBID.)

O quarto paciente, um homem de 53 anos, largou seu emprego de presidente de uma agência de publicidade de sucesso aos 35, declarando sua intenção de escrever uma novela política. Ele se mudou para a Guatemala, mas nunca escreveu nada, em vez disso assumindo um interesse em fotografia e esculturas de cera; durante todo o seu tempo, ignorou sua família e nem tentou se comunicar com sua mulher e filhos por meses. Ele eventualmente voltou para casa, mas aos 51 anos esta passando dos limites, traindo e mentindo compulsivamente, criticando duramente convidados e membros da família pelos assuntos mais simples, olhando de forma inapropriada para mulheres que não a sua esposa, e se masturbando em público. Dentro de dois dias ele teve que ser internado numa instituição.

Outro paciente era bem similar, um corretor de ações aposentado que decidiu se tornar um artista. Como o último paciente, ele exibia mudanças de linguagem, vestimenta e comportamento, e rapidamente perdeu a inibição, frequentemente furtava ou trocava de roupas em público sem se constranger. Mais tarde parou totalmente de tomar banho e trocar de roupas, o talento artístico que desenvolvera sumiu, e se tornou demente.

O caso do paciente final é o mais interessante de todos. Uma mulher de 70 anos, ela expressava "intenso ódio" (IBID) por seu marido na sua morte, mesmo ela tendo sido casada com ele por décadas. À medida que a demência piorava, a mulher, que fora uma luterana por toda sua vida, converteu-se ao Catolicismo, fez doações para a igreja, e se apaixonou por um padre e afirmava ter um relacionamento com ele. Seis meses após sua conversão religiosa, ela estava totalmente demente.

O materialismo pode explicar os efeitos da demência frontotemporal sem dificuldade. Como o dualismo a explica? A deterioração do cérebro está causando mudanças na alma - ou os traços de personalidade são uma qualidade do cérebro e não da alma? Mas isso implica que esses tratos se perderão com a morte. Nesse caso, em que sentido irá a alma no além ser a mesma pessoa que era durante a vida?

Além disso, muitas variedades do teísmo devem necessariamente manter que traços de personalidade e preferências vêm da alma e não do cérebro, porque os traços de personalidade determinam a forma como pensamos e reagimos, e é dito em muitas religiões que pensamentos e ações serão levados em consideração quando nosso lugar no além for julgado. Realmente, cinco dos clássicos "sete pecados capitais" - orgulho, inveja, luxúria, ira e ganância - são puramente estados mentais, e todas as grandes religiões sustentam que um mero pensamento impróprio pode ser um pecado.

Mas o caso mais interessante de todos é o último. Se a FTD pode fazer uma pessoa trocar sua religião, pode fazer com que outros façam o mesmo. E se há uma coisa que de acordo com o dualismo deve vir da alma e não depender de um cérebro material e vulnerável, é a escolha de religião. No entanto, as evidências mostram que não é o caso. FTD pode ser herdada; Deus irá castigar as pessoas pelos seus genes? Se a escolha de religião de uma pessoa importa para ele, por que ele sequer criaria uma doença assim em primeiro lugar? Ou é o trabalho do Demônio - mas desde quando os seus poderes lhe permitem ser capaz de chegar a fazer as pessoas mudarem suas crenças, em vez de apenas tentá-las?

Euforia e "Morte Emocional"

Tem-se notado já que o hemisfério direito do cérebro parece ser mais emocionalmente volátil do que o esquerdo, mais sujeito a emoções negativas como raiva, tristeza e pesar. Ele consistentemente tende a ver o mundo como mais hostil e desagradável do que o esquerdo vê (Sagan 1977, p. 189). No entanto, isto não significa que o hemisfério direito é no todo prejudicial ou desnecessário para a evolução humana. Estes sentimentos são uma parte normal da composição humana, e há ocasiões em que elas são apropriadas e saudáveis. Uma falta delas pode ser tão prejudicial quanto um excesso delas, como o seguinte caso mostra. Se o hemisfério direito está danificado e incapaz de funcionar normalmente, o hemisfério esquerdo, mais plácido, domina, e a pessoa pode ficar ou emocionalmente "achatada" e indiferente às preocupações dos outros, ou num estado de constante euforia de baixa intensidade, independente das circunstâncias.

Dr. Kenneth Heilman fornece um estudo de caso que ele testemunhou: um jovem padre jesuíta que tinha por hobby praticar mergulho, que uma vez subiu à tona rápido demais. Como resultado, sofreu um enjôo de descompressão que por fim resultou numa ruptura na sua artéria carótida direita e um ataque no seu hemisfério direito. Nos primeiros dias após o acidente, ele estava letárgico, mas depois se recuperou e de certa forma se tornou mais alerta. No entanto, embora soubesse que teve um ataque, "ele parecia ficar totalmente despreocupado sobre isso e às vezes parecia achar que aquilo era engraçado." (Heilman 2002, p. 77).

No entanto, sua síndrome teve repercussões mais profundas. Numa aposta para determinar os efeitos exatos do ataque, Dr. Heilman passou vários dias conversando com ele. O jovem padre era um homem inteligente e articulado, e seus diálogos versavam sobre muitos tópicos, mas ele "nunca via sinais de preocupação, tristeza ou raiva mesmo quando conversávamos sobre assuntos que normalmente provocam tais respostas" (p. 78). Em particular, o jovem padre tinha uma irmã com leucemia, mas não expressou nenhuma tristeza ou preocupação ao discutirem sobre ela ou sua doença.

As suspeitas do Dr. Heilman sobre o que houvera acontecido ao homem se confirmaram quando seus pais vieram visitá-lo e foram embora perturbados. Conforme lhe disseram:

"Ele parece-se com o nosso filho e tem a mesma voz que o nosso filho, mas ele não é a mesma pessoa que conhecíamos e amávamos... ele não é a mesma pessoa que era antes de ter este ataque. Nosso filho era uma pessoa calorosa, carinhosa e sensível. Tudo isto se foi. Ele agora fala como se fosse um robô". (p. 78-79, ênfase minha).

Como discutido anteriormente, o hemisfério direito, entre outras coisas, possui a habilidade de investir tons emocionais a nossa fala e expressões faciais. Mas algo ainda mais fundamental estava errado com o jovem. Seus pais explicaram: "Quando conversamos sobre seus deveres como padre e lhe dissemos que ele poderia não conseguir mais segui-los, ele disse, 'E daí?'", e mais ainda:

"Ele tem uma irmã mais nova com leucemia. Ele é louco por ela, ou talvez deva dizer, era. Ela estava em remissão quando ele veio para as Õndias Ocidentais, mas agora ela está no hospital com uma recaída. No começo, estávamos hesitantes em lhe contar porque não queríamos perturbá-lo, mas fiquei surpresa que ele nunca perguntou sobre ela, então decidi contar a ele. Ele nunca perguntou como ela estava indo, e a única coisa que ele disse após lhe contarmos sobre o estado dela foi, 'O Jim Thomas ainda está cuidando dela? O Jim é uma figuraça. Sempre conta as melhores piadas. Quer ouvir uma?' Eu lhe disse, não! Não estava a fim de piadas. Ele disse, 'uma pena'. Não era assim que nosso filho agia antes de ficar doente." (IBID, ênfase minha).

Esta dolorosa história ilustra como uma propriedade humana tão fundamental quanto a compaixão surge do cérebro e pode ser destruída ao se alterar o cérebro. Um jovem inteligente, amável e carinhoso, por resultado de uma seqÜela cerebral, passou por uma drástica mudança de personalidade. Tornou-se indiferente a seu sacerdócio e despreocupado com doença potencialmente fatal de um ente querido, até mesmo brincando com bom humor sobre o assunto com seus angustiados pais, que disseram que ele "não era a mesma pessoa que conheciam e amavam", não a mesma pessoa que era antes de seu ataque.

Um dos ensinamentos morais mais básicos, encontrados nas escrituras sagradas de muitas religiões, é amar seus companheiros como a si mesmo - em outras palavras, mostrar compaixão. Mas este jovem, sem ter culpa alguma, parece ter perdido esta habilidade. Sem mais poder sentir essas emoções negativas, como conseqÜência ele aparentemente tornou-se incapaz de imaginar como elas devem ser para os outros. Sua habilidade de empatizar com o sofrimento dos outros, de experimentar a dor deles como se fosse sua própria, tornara-se "borrada" por uma constante euforia branda. Como pode um homem ser subtraído de um dos traços mais fundamentais de humanidade por seqÜela cerebral se a doutrina da alma é verdadeira?

Psicose e Depressão

A depressão clínica é um dos distúrbios mentais mais comuns em existência. Entre 10 e 15% das pessoas irão sofrer de alguma forma de transtorno depressivo durante suas vidas - 19 milhões de pessoas a cada ano só nos Estados Unidos. Mas apesar da freqÜência da condição, ela é frequentemente mal-compreendida. Depressão não é a mesma coisa que uma crise temporária de tristeza, assim como um indivíduo depressivo não pode simplesmente "acordar dela" ou desejar sentirem-se melhor, assim como também não é um sinal de fraqueza pessoal. É uma doença séria, porém tratável, resultante de um desequilíbrio de neurotransmissores dentro do cérebro. Ainda que a depressão possa ser induzida por condições ambientais, muitos casos têm base genética, e muitas vezes o começo da depressão não tem relação alguma com as circunstâncias da vida de um indivíduo. A depressão produz um estado persistente de tristeza, ansiedade, culpa, desamparo e desespero que dura por semanas ou meses a ponto de interferir na capacidade de se viver uma vida normal, e em casos graves pode levar a tentativas de suicídio. (NIMH 2002, AFSP 2002). Cristãos e outros teístas de forma alguma estão imunes a esta condição (veja http://www.christian-depression.org).

A confusão sobre a depressão entre cristãos é generalizada - o site Christian Depression é um testemunho a isso, mencionando, por exemplo, uma igreja cujo site condenou a depressão como uma falha de autodisciplina. No entanto, tais afirmações são falsas, e a verdadeira explicação da depressão clínica é menos concordante com o teísmo. Já que muitas religiões consideram o suicídio um pecado, Deus responsabilizaria uma pessoa que tirou sua própria vida por resultado de sua doença depressiva? É difícil de crer, se a alma existe, que as falhas do corpo possam exercer tamanha influência sobre ela.

Mas ainda mais chocante para o dualismo, a depressão também é por acaso uma das doenças mentais mais curáveis - em torno de 90% dos pacientes podem ser eficientemente curados (AFSP 2002), muitas vezes com o uso de antidepressivos que aumentam a quantidade do neurotransmissor serotonina no cérebro. (Serotonina é uma substância química que os neurônios usam para se comunicarem entre si, que influencia um vasto leque de humores e comportamentos. Deficiências de serotonina implicam em depressão, comportamentos agressivos, transtorno obsessivo-compulsivo, e outras doenças mentais). Exatamente como prevê o argumento da unidade mente-cérebro, substâncias químicas que alteram a química cerebral podem ter efeitos poderosos e fundamentais na consciência. Como isto pode ser conciliado com a alegação teísta que a nossa consciência depende de algo mais do que a matéria?

Suporte ainda mais forte para o argumento da unidade vem de condições psicóticas como a esquizofrenia, que às vezes faz com o que o paciente tente ferir outros. A esquizofrenia é o exemplo clássico: uma doença mental crônica e grave que afeta aproximadamente 1% da população (NIMH 1999). Esquizofrênicos sofrem com sintomas bizarros e assustadores como alucinações, vozes, e desligamento em geral da realidade. Em casos graves, essas vozes internas podem comandar o indivíduo a ferirem outras pessoas, um comando a que eles podem não conseguir resistir.

Deve-se enfatizar que a esquizofrenia e outras doenças mentais não necessariamente causam comportamento violento. A vasta maioria das pessoas sofrendo de condições psicóticas é retraída em vez de violenta, e representa mais um perigo a si mesmas do que aos outros. No entanto, é inegável que existe um pequeno subgrupo de casos em que transtornos psicóticos estão ligados a atos agressivos e violentos (Walsh et al. 2004). De fato, temas religiosos muitas vezes surgem nessas situações; o sofredor pode crer que Deus o ordenou que cometesse esses atos, ou que a sua vítima é Satã ou de alguma maneira mau. (para uma amostra de casos onde a esquizofrenia e outros transtornos mentais têm sido ligados a comportamento violento, veja http://www.schizophrenia.com/family/viol.html.) Outros distúrbios mentais podem causar comportamento violento; por exemplo, um indivíduo sofrendo de um grave caso de síndrome de Capgras convenceu-se de que seu pai era um robô, então decapitou-o e abriu o seu crânio para procurar pro microchips. (Ramachandran 1998, p. 166).

Como a depressão, doenças psicóticas podem ser tratadas com medicação que reprime as alucinações, ilusões paranóicas e outros sintomas da doença. Novamente, é justo perguntar como o dualismo pode explicar isto. Um desequilíbrio na química do cérebro produz uma alteração na consciência; uma substância que corrige este desequilíbrio desfaz a alteração. Em ponto algum dessa equação a alma entra. E como as doutrinas teístas do além acomodam estes fatos? Ao julgar as almas dos mortos, Deus irá condenar pessoas que genuinamente careciam da habilidade de distinguir o certo do errado? Como ele trata pessoas que de fato não puderam controlar seu comportamento violento - ou pessoas que sinceramente crêem que ele lhes mandou fazer o que fizeram? É possível escapar do inferno alegando insanidade?

Se, como a maioria das vertentes do teísmo crê, o propósito da vida corpórea na Terra é um campo de teste onde é permitido às pessoas determinarem livremente seu destino eterno, então a existência de tais condições é um fato inesperado que não se encaixa bem dentro dessa plataforma. Teístas que crêem nisto precisam postular que Deus nos colocou na Terra com o propósito de exercer nosso livre arbítrio, mas que também criou condições que influenciam a personalidade de certas pessoas e impedem-nas de exercerem seu livre arbítrio - um pressuposto bastante forçado e ad hoc. Por contraste, uma teoria materialista da mente pode explicar de maneira consistente todas essas condições e outras mais.

Unidade de Comportamento

Alterações Comportamentais Causadas por Tumores

O futuro parecia brilhante para Mary Jackson. Apesar de ter vivido num subúrbio pobre, ela superou essa desvantagem para se tornar a laureada dos formandos do segundo grau, e ganhara uma bolsa para universidade da Ivy League. Estava a caminho de realizar seu objetivo de se tornar uma pediatra e trabalhar com crianças nas mesmas áreas pobres onde passara sua própria infância.

No entanto, no verão após seu segundo ano, aqueles próximos a ela começaram a notar mudanças estranhas em seu comportamento. Ela crescera como uma batista devota e raramente bebera álcool antes, mas agora ela começava a beber regularmente, em freqÜência alarmante. Ela começou a freqÜentar bares, primeiro em fins de semana, depois em dias de semana, e muitas vezes acabava dormindo com homens que conhecia lá, apesar de já ter um namorado. Mais tarde, passou a usar cocaína.

O verão terminou e ela retornou à faculdade. Suas notas no ano seguinte foram terríveis - quatro F's e dois D's. seu conselheiro a avisou que ela iria perder sua bolsa se isto continuasse, mas ela recusou seu conselho terminantemente, tornou-se irritada e verbalmente abusiva diante da sugestão. Seu desempenho acadêmico, assim como sua saúde, continuava a piorar durante o semestre seguinte. Ela finalmente foi ao médico após pegar uma pneumonia que parecia não passar, e seus exames revelaram um trágico diagnóstico: Mary Jackson contraíra HIV e agora estava com AIDS. Sua queda ladeira abaixo parecia completa.

Mary admitiu sua promiscuidade, mas insistia que não era por dinheiro. Chorando, ela dizia não entender por que se tornara promíscua; isto nunca acontecera quando ela era mais jovem, mas por alguma razão, ela não conseguia mais recusar os homens que conhecia nos bares. Seu médico suspeitou de um transtorno de personalidade, mas ela mostrara outro sintoma que o deixou desconfiado: ela não menstruava há meses. Suspeitando de um transtorno em sua glândula pituitária, ele a encaminhou para o neurologista Dr. Kenneth Heilman.

Dr. Heilman descobriu que Mary perdera sua motivação para objetivos de longo prazo, não conseguia evitar situações de sedução, e se tornara pavio-curto e facilmente frustrada. Ao lhe pedirem para repetir um simples teste de memória, ela disparou, "uma vez é o bastante", e admitiu, "Há até um ano atrás, era extremamente raro eu me irritar. Agora parece que estou sempre na ponta dos cascos" (Heilman 2002, p. 83).

Além disso, ela tinha um conjunto de outros sintomas estranhos. Um deles era um distúrbio chamado síndrome da dependência do ambiente, em que o comportamento do paciente parece controlado por deixas e estímulos externos em vez de por decisões internas. Ao lhe darem papel e caneta, mas nenhuma instrução de o que o fazer com eles, ela imediatamente pegou a caneta e começou a escrever o seu nome. Quando um pente foi colocado por sobre a mesa em frente a ela, ela pegou o pente, como que inconscientemente, e começou a pentear o cabelo (p. 84).

Os lobos frontais regulam e inibem o nosso comportamento, e a síndrome da dependência do ambiente é um sinal clássico de disfunção do lobo frontal. Seus outros sintomas também se encaixam perfeitamente neste diagnóstico. Mas por que esta mudança de comportamento nela foi tão repentina?

Dr. Heilman achou a resposta ao pedir um exame de ressonância magnética no cérebro de Mary. O ERM revelou que um grande tumor estava crescendo em seu cérebro, surgindo da glândula pituitária e pressionando seus córtix orbitofrontais, áreas do lobo frontais assim chamadas por estarem diretamente acima das órbitas dos olhos. Foi este tumor que causou a mudança súbita e dramática em sua personalidade.

Mary passou por cirurgia para remover o tumor e começou uma terapia de combinação antiviral para controlar a infecção por HIV, e a mudança resultante em sua personalidade foi tão dramática e súbita quanto fora a anterior. Sua motivação retornou, e ela voltou para a faculdade, conseguiu seu bacharelado, e entrou no mestrado em sociologia. "A mãe dela pensa que ela ainda perde a cabeça mais rápido do que antes do tumor, mas em geral diz que sua filha é 'a mesma de antes'" (p. 85).

Um caso possivelmente ainda mais chocante do que o de Mary Jackson foi apresentado pelos neurologistas Russell Swerdlow e Jeffrey Burns na reunião anual de 2002 da Associação Neurológica Americana: um homem cujo tumor cerebral o transformou num pedófilo (Choi 2002).

O paciente, um professor de 40 anos, tivera uma história normal sem registro por assédio sexual. Mas então, sem aviso nem razão aparente, seu comportamento mudou: ele começou a se relacionar com prostitutas, visitar secretamente sites de pornografia infantil, e finalmente começou a agredir menores, comportamento pelo qual ele foi preso e acusado de abuso sexual infantil. O próprio homem sabia que este comportamento era inaceitável, mas em suas próprias palavras, o "princípio do prazer" falou mais alto que seu autodomínio (IBID), e ele falhou no tratamento nos Sexólatras Anônimos. Na noite anterior a sua sentença, ele deu baixa num hospital, dizendo que temia estuprar mais alguém e reclamava de dores de cabeça. Um ERM revelou que ele tivera um tumor cerebral do tamanho de um ovo - e assim como o de Mary Jackson, esta pressionando o seu córtex orbitofrontal.

Uma cirurgia removeu o tumor, e após recuperar-se da operação, o homem conseguiu completar com sucesso o curso nos Sexólatras Anônimos e voltou para casa. Por algum tempo, seu comportamento estava completamente normal. Então, em volta de outubro de 2001, ele começou a reclamar de dores de cabeça novamente, e mais uma vez começou a colecionar pornografia. Um segundo ERM revelou que o tumor começara a voltar; novamente foi extirpado, e novamente o comportamento desapareceu.

Em ambos os casos, a medida que o tumor crescia, as personalidades desses pacientes mudaram radicalmente, junto com alterações correspondentes de comportamento. Quando foram removidos, suas personalidades de pronto retornaram ao normal, e seu comportamento normal e aceitável retornou. Essa variação correlacionada fornece fortes evidências de que personalidade e comportamento estão unificados no cérebro. Os valores que guiam nosso comportamento, a motivação para embarcar e completar objetivos, os traços básicos de caráter que determinam quem somos e como agimos - as evidências mostram claramente que todas essas coisas surgem dos lobos frontais de nossos cérebros.

Acinesia

Paralisia é a incapacidade de se mexer, mas existe uma condição ainda mais incomum chamada de acinesia, a indisposição de se mexer. Nesta condição, não há razão física pela qual a pessoa não possa realizar tarefas; em vez disso, o que está faltando é a habilidade de iniciar o movimento. A menos que seja fortemente encorajada por outras, e às vezes nem assim, sofredores de acinesia irão passivamente se sentar e fazer absolutamente nada, exceto atender as necessidades de curto prazo mais imediatas. Ao contrário da paralisia, que é um defeito físico, a acinesia resulta de um defeito na personalidade, na motivação. Baseado em alguns dos distúrbios que este ensaio já cobriu, pode-se suspeitar que a acinesia seja outra ligada aos lobos frontais, e essa suspeita mostra-se absolutamente correta.

Dr. Kenneth Heilman nos dá um exemplo particularmente dramático do que é a acinesia: o caso de Thomas Taylor, um bispo batista de 58 anos. Antes de sua doença, ele era um homem trabalhador, meticuloso, independente e ativo na sua igreja e comunidade, e tão dedicado que ele recusava as ofertas dos seus paroquianos em lhe pagarem um salário e continuava a se sustentar trabalhando fora da igreja. (Heilman 2002, p. 206).

Mas isto não iria durar muito. O primeiro sintoma que se manifestou foi que ele começou a aparecer tarde em seus compromissos. No entanto, à medida que sua acinesia tornava-se mais pronunciada, ele parou de manter os próprios compromissos em si, e então parou de sair de casa. Tudo o que ele faria todo dia, após a família tirá-lo da cama, era sentar-se no sofá; no início ele ligava a TV, mas eventualmente até isto parou. Ele parou de tomar banho, barbear-se, e trocar suas roupas sozinho, e depois parou de falar. Ele falava apenas para responder perguntas diretas, e mesmo assim, normalmente só respondia com monossílabos. Uns dois ou três anos após o início de sua condição, sua acinesia estava tão grave que ele não se levantava mais nem para ir ao banheiro, assim urinando nas calças. Ainda que ele antes escrevia e pregava um novo sermão toda semana, o último mês em que pregou na sua igreja, ele deu o mesmo sermão três semanas seguidas.

Este foi o registro que sua esposa deu sobre sua condição, e quando o Dr. Heilman perguntou ao próprio Sr. Taylor, ele confirmou a história.

"Quando eu perguntei por que ele dava o mesmo sermão repetidamente, ele respondeu, 'se eles são burros o bastante pra sentar e escutar ao mesmo sermão é porque merecem'". Ao ouvir essas palavras, lágrimas desceram pelo rosto da esposa. 'Dr. Heilman, você não acredita o quanto este homem mudou. "Três ou quatro anos atrás, eu jamais o imaginaria dizendo qualquer coisa assim." (p. 207, ênfase minha)

O exame do Dr. Heilman logo revelou a causa da condição do bispo: um tumor benigno pressionando seus lobos esquerdo e direito. Uma cirurgia de rotina removeu-o, e como no caso de Mary Jackson, sua recuperação foi rápida e impressionante.

"Uma vez fui visitar o Sr. Taylor, e ele mostrou uma melhora dramática. Ele não estava pregando, mas estava ensinando na escola de domingo, cuidando de si e fazendo planos para voltar a trabalhar novamente". (p. 207)

Síndrome da Dependência do Ambiente

Como mostra o caso anterior, os lobos frontais do cérebro prestam um papel importante em iniciar o comportamento, e esta função pode ser desligada se forem danificados. No entanto, as evidências mostram que os lobos frontais prestam um papel igualmente importante em inibir o comportamento, e essa função também pode ser desligada por dano ao lobo frontal. Relembre o caso de Phineas Gage, cuja ferida no lobo frontal o deixou incapaz de suprimir os impulsos vulgares e modos rudes que todos devemos frear se devemos nos encaixar na sociedade. Da mesma forma, relembre o caso de Mary Jackson; o tumor pressionando seus lobos frontais afetou sua capacidade de inibir comportamento perigoso ou impensado, o que resultou em ela usar drogas, ir a bares, e frequentemente dormir com homens que conhecia lá, já que perdera muito da faculdade de recusá-los.

Além disso, um exame revelou que Mary Jackson tivera um sintoma clássico de disfunção do lobo frontal chamada de síndrome da dependência do ambiente, no qual o comportamento do paciente parece ser controlado por deixas externas em vez de por decisões voluntárias internas. Ao receber papel e caneta, mas nenhuma instrução do que fazer com eles, ela imediatamente pegou a caneta e começou a escrever o seu nome; ao receber um pente, sem pestanejar, ela o pegou e passou A pentear o seu cabelo. Thomas Taylor, o bispo batista de outro caso anterior, expressava um sintoma similar; ao receber papel e caneta, ele imediatamente os pegou e começou a escrever sem que ninguém lhe pedisse (Heilman 2002, p. 211). Francois Lhermitte descreveu uma enfermeira com disfunção no lobo frontal que, quando lhe davam uma seringa, tentava dar uma injeção no doutor que a examinava (IBID.). James Austin (Austin 1998, p. 255) descreve o que pode ou não ser o mesmo caso: um paciente que, diante da mera visão dos instrumentos médicos comuns no escritório do seu neurologista, não só não conseguia resistir a pegá-los como na verdade chegou a usá-los para realizar um exame físico no próprio, bastante surpreso, neurologista.

A existência da síndrome da dependência do ambiente levanta dificuldades para aqueles dualistas que afirmariam que a alma é a fonte do comportamento com livre-arbítrio. No entanto, as pessoas descritas acima realmente retiveram algum grau de controle voluntário sobre suas ações. Em mais alguns exemplos mais dramáticos de disfunção do lobo frontal, no entanto, isto nem sempre é o caso. Muitas vezes, sofredores da doença são incapazes de controlar suas ações mesmo quando pedidas a fazê-lo.

Enquanto viajava pela Malásia em 1884, o famoso neurologista Georges Gilles de la Tourette (o mesmo da "síndrome de Tourette") ganhou a oportunidade de estudar vários pacientes de uma condição que ele chamou de latah. Não importa como ela acontecia, por doença ou trauma, as funções cerebrais inibitórias dos pacientes dessa condição eram inteiramente desligadas, e como resultado, as vítimas são compelidas a obedecerem a qualquer comando que ouvem, e algumas vezes, a imitarem qualquer ação que vêem. Tourette chamou essas pessoas de "saltadores", e escreveu:

"Dois saltadores que estavam de pé próximos um do outro foram mandados a se baterem... e eles se bateram, muito violentamente. Quando os comandos eram dados em uma voz rápida e alta, o saltador repete a ordem. Quando lhe mandam bater, ele bate, quando lhe mandam jogar ele joga, o que quer que tenha nas mãos." (citado em Newberg e D'Aquili 2001, p. 93)

Tourette entrevistou outra mulher com essa condição, e falou com ela por dez minutos sem perceber nada de anormal com ela. Então, o homem que lhe apresentara a ela tirou o seu casaco.

"Para meu horror, minha venerável convidada tomou-se de pronto a tirar o seu kabayah. Meus companheiros chegaram tarde demais para impedi-la de continuar a fazer o mesmo com o resto das roupas." (IBID.)

Essas pessoas eram loucas? Tourette não pensava assim. Nas suas observações, ele não descobriu evidência alguma de psicose em nenhuma delas, nenhum sinal de rompimento com a realidade. De fato, ele dizia, cada vítima era "perfeitamente consciente da humilhante condição mental que exibia, e lamenta sua degradação" (IBID.). Ainda que quisessem controlar seu comportamento, não o conseguiam. Como outro neurologista observou em casos similares de dependência do ambiente, "o comportamento destes pacientes parece ser inteiramente controlado pelo mundo externo" (Heilman 2002, p. 211).

Novamente, o dilema para os dualistas é óbvio. Como pode Deus nos por de responsáveis por nosso comportamento se o nosso comportamento pode ser removido de nosso controle consciente por um dano cerebral? E a existência dessas síndromes não implica que comportamento consciente é controlado pelas mesmas regiões cerebrais também nas pessoas normais?

Afasia e Incapacidade de Rezar

Afasia, uma deficiência na linguagem falada, pode ser causada por dano aos centros de linguagem cerebrais. Este ensaio já discutiu dois dos tipos mais comuns: a afasia de Broca, perda da capacidade de falar, e a afasia de Wernicke, a perda da capacidade de entender. Acontece que a afasia de Broca padrão na verdade engloba duas capacidades distintas - a fala espontânea, a habilidade de conduzir uma conversação, e a fala automática, a capacidade de recitar da memória, como, por exemplo, ao cantar. Tipos mais específicos de dano cerebral podem impactar uma dessas capacidades sem afetar a outra.

Por exemplo, o Dr. Kenneth Heilman nos conta de um paciente seu, um judeu ortodoxo que vivera na França a maior parte de sua vida, mas imigrara para Israel pouco antes de sofrer um derrame. Várias vezes ao dia, judeus ortodoxos devotos recitam em hebreu a oração monoteística de Deuteronômio 6:4: "ouça, ó Israel, o Senhor nosso Deus é Uno.". Mas ao acordar do derrame, o paciente descobriu para seu choque que ele não conseguia recitar essa oração, a qual recitara todo dia por sessenta anos (Heilman 2002, p. 14). Também aconteceu que ele não podia mais cantar o hino nacional francês. Em qualquer outro assunto, no entanto, sua capacidade de conversar estava intacta. Incrível como isso parece, o dano ao seu cérebro impactara somente esta única capacidade específica.

Outro exemplo se refere a um decano de uma igreja cristã de Vermont que sofreu um derrame similar, exceto que este impactou sua fala conversacional enquanto deixou intacta a sua fala automática. Antes do derrame, sua esposa nunca o ouvira xingar um palavrão; logo depois, tudo o que ele conseguia dizer eram palavrões e o Pai Nosso. (p. 13).

Pode parecer incrível que tais capacidades específicas possam ser comprometidas sem afetar outras. A pessoa média pode perguntar, "Qual é o problema? Por que eles não podiam simplesmente falar?", e realmente, se a doutrina da alma fosse verdadeira - se todos tivéssemos um "fantasma" sobrenatural em nossas cabeças, intacto a dano físico cerebral, que dirige nossas ações - esta seria uma pergunta válida. No entanto, a evidência neurológica tem demonstrado repetidamente que a nossa consciência e suas capacidades são unificadas com o cérebro, e podem ser afetadas por dano a ele. Resumindo, "a mente é o produto das atividades do cérebro, e as atividades do cérebro dependem da sua organização" (p. vii).

Deve-se perguntar se as deficiências dessas pessoas irão afetar seu destino eterno. Iria um cristão, judeu ou muçulmano que perdeu sua fala automática ser responsabilizado por Deus por falhar em dizer as orações que ele exigiu deles, apesar de não terem culpa alguma? E quanto a um indivíduo profundamente religioso que perde a capacidade de falar qualquer coisa exceto profanidades?

A afasia é relevante à religião também de uma outra forma. Enquanto ela é às vezes altamente específica, como os exemplos acima mostram, em casos de dano cerebral amplo ele também pode ser bem genérico, produzindo uma destruição total da capacidade de se comunicar. Essa condição é chamada de afasia global, e o Dr. Heilman nos dá um exemplo: uma mulher de 34 anos chamada Cathy Henson que deu baixa no hospital um dia após subitamente desenvolver paralisia do lado direito, acompanhada de uma perda total na capacidade de falar, escrever e entender a fala e escrita dos outros. Um ERM confirmou que ela sofrera um massivo derrame que lhe causara dano por todo o hemisfério esquerdo, incluindo o córtex de linguagem inteiro do seu cérebro (p. 61-62). Ainda que ela reconhecesse sua família quando veio lhe visitar, ela era completamente incapaz de se comunicar com eles.

A existência de uma condição assim levanta dificuldades para membros de religiões evangélicas. Como é possível converter uma pessoa com a qual não se pode nem sequer comunicar? Ela será considerada responsável por sua crença se ela for para o além e descobrir que ela estava errada, quando nunca tivera uma chance de aprender ou ouvir algo diferente durante sua vida terrena?

Mutismo Acinético

A última síndrome que esta seção irá discutir chama-se mutismo acinético, o qual pode ser mais bem descrito como um estado de "animação suspensa, mental e externa" (Damasio 1994, p. 71) ou como um "coma vigilante" (Ramachandran 1998, p. 252). Esta condição muitas vezes resulta de dano a uma região do cérebro chamada córtex cingulado anterior, o que parece ser onde os sistemas de atenção, emoção e memória de curto prazo se encontram. Pacientes com mutismo acinético, ainda que acordados, alertas e conscientes, simplesmente não fazem nada. Seus olhos rastreiam objetos em movimento, mas eles deitam-se na cama sem se moverem nem falarem (daí o nome da condição) e eles não respondem a estímulos dolorosos ou a outros (p. 253). Ainda que similar à acinesia, esta condição é uma versão mais extrema.

Dr. Antonio Damasio traz um estudo de caso de uma paciente, chamada Srta T, com esta condição. Como ele escreve:

"Ela subitamente tornou-se imóvel e muda, e ela se deitava na cama com seus olhos abertos, porém com uma expressão facial vazia; eu muitas vezes tenho usado o termo 'neutro' para transmitir a equanimidade - ou ausência - de uma expressão assim... seu corpo não estava mais animado do que seu rosto. Ela pode até fazer um movimento normal com seu braço e mão, para puxar os lençóis da cama, por exemplo, mas em geral seus membros estavam em repouso. Quando perguntada sobre a sua situação, ele normalmente ficava quieta, ainda que após muita insistência ela poderia dizer o seu nome, ou os nomes de seu marido e filhos, ou o nome da cidade onde vivia. Mas ela não falaria sobre sua história médica, passada ou presente, e ela não conseguiria descrever os eventos que levaram a sua baixa no hospital. Não tinha como saber, então, se ela não tinha lembrança daqueles eventos ou se ela tinha alguma lembrança mas estava relutante ou incapaz de falar sobre ela. Ela nunca se irritava com meu questionamento insistente, nunca mostrava um pingo de preocupação sobre si própria ou qualquer outra coisa." (p.71-72)

Meses depois, a Sra. T recuperou-se de seu coma consciente, e a parte mais estranha de tudo foram as suas lembranças da doença. O mais impressionante é que ela estava certa de que não estivera paralisada, nem que estivera sentindo dor ou angústia. "Nada a forçara a não dizer o que pensava. Em vez disso, ela se lembrava de que 'Eu realmente não tinha nada a dizer'" (p. 72). Pela duração da sua doença, não houvera pensamentos em sua mente, nenhum raciocínio, nenhuma tomada de decisão, nenhum desejo de comunicar-se ou de fazer qualquer outra coisa. Ainda que estivesse totalmente acordada, era como se sua vontade de agir tivera sido desligada.


Sob a luz da evidência acima, advogados do dualismo devem agora explicar como a doutrina da alma se sustenta. Com esses estudos de caso, eu me esforcei para mostrar que os três aspectos básicos da consciência - identidade, personalidade, e comportamento - estão de todas as maneiras unificadas como cérebro, e podem ser alterados ou afetados por dano ao cérebro. Dano cerebral pode fragmentar os frágeis limites do eu, separando um único indivíduo em esferas independentes de consciência que percebem e desejam coisas completamente diferentes, ou despedaçando a linha contínua da sensibilização em uma variedade de eus fugazes separados de si mesmos e da realidade externa. Mudanças à estrutura física do cérebro podem exercer efeitos dramáticos na personalidade, transformando um indivíduo amigável, trabalhador, dedicado em um canalha vulgar, abusivo, preguiçoso ou imprudente. Condições que afetam a química do cérebro podem controlar inteiramente o comportamento, roubando de um indivíduo a capacidade de agir ou negando-lhe a capacidade de impedirem a si mesmos de fazê-lo.

Estes fatos, até algum ponto, já são de conhecimento comum. Tem sido universalmente reconhecido por algum tempo, até mesmo entre teístas, que doenças como o Mal de Alzheimer podem ter um efeito profundo sobre a consciência de um indivíduo, ou que condições psicológicas como depressão severa podem ser curadas por remédios que manipulam a química do cérebro. Além disso, eu tentei destacar alguns exemplos dramáticos destes fenômenos, exemplos que demonstram alterações fundamentais do eu. Tais ocorrências parecem ter sido aceitas pelo teísmo sem comentários.

No entanto, estes casos constituem forte evidência contra a maioria das variedades do dualismo cérebro-alma. Afinal, a maioria dos teístas afirma que a destruição total do cérebro sobre a morte do corpo não terá efeito algum sobre a alma: como então a destruição ou alteração de pequenas partes do cérebro durante a vida pode ter um efeito tão dramático e profundo sobre ela? Uma vez reconhecido que o cérebro media e controla todos os aspectos da consciência de forma primordial, para que então sequer precisamos postular uma alma?

Até mesmo as versões mais sofisticadas da doutrina da alma são vulneráveis ao argumento da unidade mente-cérebro. Por exemplo, um teísta pode argumentar que não há a alma como normalmente é entendida, nenhum "fantasma na máquina" imaterial vivendo dentro de nossas cabeças e dirigindo nossas ações, mas após a morte de uma pessoa Deus reconstitui perfeitamente seus padrões neurais em um novo corpo. É claro, uma posição assim está totalmente de acordo com a conclusão deste ensaio de que a consciência é um fenômeno fundamentalmente físico; mas mesmo além disso, a objeção pode ser feita de que forma alguma é axiomático que tal processo preservaria a continuidade da consciência. Para dizer de outra forma, se Deus faz isto, é realmente "você" quem sobrevive? Ou Deus simplesmente permitiu que você ficasse no esquecimento e então criou uma duplicata sua cujo destino é baseado em suas ações?

Além do mais, o argumento da unidade mente-cérebro ataca este sistema de crença de uma maneira diferente. Considere o caso de um indivíduo com um distúrbio mental que altera sua personalidade, até um ponto em que seus amigos e parentes acreditam que ele seja em essência uma pessoa diferente (como no caso de Phineas Gage, por exemplo). Quem será ressuscitada - a pessoa tal como era antes da doença, ou a pessoa que se tornou depois? Qual é o "verdadeiro" eu dessa pessoa? Se as crenças religiosas ou éticas da pessoa mudaram no curso da doença, por qual conjunto de crenças ela será julgada? Parece absurdo sugerir que esses eus diferentes seriam ressuscitados e julgados independentemente, como se fosse pessoas separadas; mas por outro lado, para que Deus combine esses dois eus essencialmente diferentes durante a ressurreição seria necessário criar um indivíduo novo e composto, que não existia antes, em vez de recriar um que existia anteriormente. Estas dificuldades parecem insuperáveis para o tradicional dualismo teístico, e novamente o argumento da unidade mente-cérebro leva inevitavelmente à conclusão de que o eu está unificado com estado do cérebro em qualquer dado instante, e não pode ser concebido como algo com qualquer existência independente.

E mesmo além disso, o argumento da unidade mente-cérebro tem uma outra carta para jogar. Há evidências sugerindo que a própria religião em si é explicável como o resultado do funcionamento do cérebro. Neurocientistas estudando as raízes biológicas da experiência religiosa tem feito algumas descobertas que podem ser alarmantes para os crentes, mas que estão perfeitamente de acordo com o que os ateus têm dito o tempo todo.

Parte 3: A Parte de Deus do Cérebro

Buscando entender a base neurológica da experiência religiosa, os pesquisadores Andrew Newberg e Eugene D'Aquili realizaram um experimento. Ao encontrarem um grupo de oito voluntários que eram Budistas Zens, eles lhes pediram para meditar na paz e silêncio de uma sala escura. Estes budistas afirmaram que, através da meditação, eles podiam alcançar um estado chamado satori no qual experimentavam um senso de bênção transcendental junto com um sentimento de atemporalidade e de infinitude, como se eles fossem uma parte profundamente entrelaçada de toda a realidade. Newberg e D'Aquili queriam descobrir o que estava acontecendo em suas mentes quando isto acontecia.

Quando os voluntários alcançaram o ápice de seu estado meditativo, eles puxaram uma corda, que era a deixa para que Newberg e D'Aquili's injetassem um rastreador radioativo em seus sangues por via intravenosa. Este rastreador viajava até seus cérebros e tornava-se ligado aos neurônios que estavam mais ativos, criando um instantâneo da atividade cerebral naquele instante em particular que podia mais tarde ser retratada por uma técnica chamada SPECT (single photon emission computed tomography). Quando o exame foi realizado, ele mostrou, como não seria de se surpreender, que as regiões do cérebro responsáveis pela concentração estavam altamente ativas. No entanto, havia outro resultado consistente que se destacou. Em todos os oito testados, uma região particular do cérebro, o lobo parietal superior, mostrou uma agude redução na sua atividade.

O papel desta região do cérebro já era conhecido. Como discutido na Parte 1 deste ensaio, o lobo parietal superior é o sistema "onde" do cérebro. Seu trabalho é orientar uma pessoa no espaço tridimensional e ajudá-la a se mover pelo mundo; como parte desta tarefa, ela deve traçar uma distinção clara entre o "eu" e o "não-eu". Por esta razão, Newberg e D'Aquili a chamam de "área de associação de orientação", ou AAO. Em todos os oito voluntários, a AAO fora inibida por seu estado meditativo profundo, privados da informação sensorial que precisa para construir uma imagem coerente do mundo.

O que seria o resultado disto? Sem a AOO, o cérebro é incapaz de perceber os limites físicos do eu - incapaz de dizer onde o corpo termina e o mundo começa. (um dos meditadores estudados descreveu a experiência como "sentir uma perda de fronteiras" (Holmes 2001, p. 26)). E "nesse caso, o cérebro não teria escolha a não ser perceber que o eu é interminável e intimamente entrelaçado com tudo e com todos que a mente sente. E esta percepção seria sentida como total e inquestionavelmente real" (Newberg e D'Aquili 2001, p. 6).

Intrigado pela possibilidade de uma base biológica para a experiência religiosa, Newberg e D'Aquili ampliaram o seu estudo para incluir freiras franciscanas que afirmavam sentir um senso de proximidade com Deus sob oração profunda. O experimento foi repetido, e os resultados foram os mesmos: ambos os budistas e as franciscanas experimentavam quedas similares em atividade na AOO, produzindo um senso de eu infinito que ambos os grupos então interpretavam pelo filtro de suas próprias crenças religiosas.

Este senso de unidade com o infinito não é a única característica da experiência religiosa. Tais experiências são tipicamente acompanhadas por outra sensação: um sentimento de êxtase e reverência, como se tudo estivesse dotado de significância cósmica e profundo sentido intrínseco. No passado, tais sensações eram reduzidas aos efeitos da comunhão com o divino, mas a ciência tem localizado a sua base neurológica também. Não surpreende que estas sensações também possam ser total e parcimoniosamente explicadas sem referência a uma divindade.

Dentro dos lobos temporais do cérebro está uma região evolutivamente antiga chamada de sistema límbico. A função principal deste sistema é produzir e controlar as emoções. Em particular, uma tarefa importante que o sistema límbico executa é "rotular" a entrada sensorial com significado emocional, nos permitindo determinar o significado que uma pessoa ou objeto traz para nós. Quando esta função é afetada por dano cerebral, o resultado é a síndrome de Capgras, descrita na Parte 2 deste ensaio.

Como com muitas estruturas cerebrais, sabemos a função do sistema límbico em grande parte pela observação do que acontece com pessoas em quem ele está defeituoso. Especificamente, temos observado os sintomas da epilepsia do lobo temporal, uma condição caracterizada por tempestades erráticas de disparos neurais aleatórios que ocorrem nesta parte do cérebro. Quando tais ataques ocorrem em áreas dedicadas ao controle motor, o resultado são os sintomas bem conhecidos da epilepsia, os ataques físicos e as poderosas contrações musculares involuntárias típicas das assim chamadas crises tônico-clônicas. Mas quando os ataques ocorrem predominantemente nos lobos temporais e portanto no sistema límbico, os efeitos predominantes não são físicos, mas emocionais. Pacientes dizem que seus "sentidos estão pegando fogo" (Ramachandran 1998, p. 179), flutuando fortemente de poderosos cumes de êxtase até vales paralisantes de terror e fúria.

Além disso, há um outro sintoma frequentemente associado com a epilepsia do lobo temporal. Pacientes dessa condição são muitas vezes hiper-religiosos: eles afirmam ter experiências místicas e espirituais profundas durante os seus ataques; eles são obsessivamente preocupados com questões teológicas, relatando textos meticulosamente detalhados, elaborados e normalmente incompreensíveis explicando suas crenças (uma condição chamada hipergrafia); eles vêem significância cósmica em eventos triviais do dia-a-dia; e eles podem acreditar terem sido visitados por Deus ou estarem na presença de Deus, ou que eles foram "escolhidos" (Ramachandran 1998, p. 179-180). Distorções do tempo e espaço, incluindo experiências extra-corporais, muitas vezes também acontecem (Persinger 1987, p. 123; Newberg e D'Aquili 2001, p. 110). O novelista Fyodor Dostoevsky, quem se acredita ter sido um epilético do lobo temporal, escreveu que ele "tocava Deus" durante os seus ataques (Holmes 2001, p. 27).

Para a maioria das pessoas com funcionamento mental normal, é óbvio que o comportamento hiper-religioso de alguns epiléticos do lobo temporal é meramente um sintoma de um distúrbio tratável, não um sinal de favor especial de Deus. No entanto, a convicção produzida naqueles que experimentam esses eventos é inabalável. E alem disso, se se acredita que Deus existe e pode ocasionalmente falar com seres humanos, então sob que base podemos estar certos de que estas pessoas não estão realmente se comunicando com ele? O mundo nebuloso e infalsificável da crença teísta não oferece uma forma de excluir esta possibilidade. Como o Dr. Ramachandran astutamente coloca:

"Quem está apto a dizer se tais experiências são 'genuinas' (o que quer que isso signifique) ou 'patologicas'? Você, como médico, iria realmente querer medicar um paciente assim e negar-lhe visitas ao Todo Poderoso?" (p. 179)

Mesmo assim, um teísta pode perguntar que relevância este fenômeno traz para o resto de nós. Ainda que a maioria das pessoas, incluindo a maioria dos teístas, não seja epilética do lobo temporal, a relevância de encontrar uma região cerebral associada com a experiência religiosa é obvia. Realmente, enquanto a maioria dos religiosos não é epilética do lobo temporal, a maioria dos religiosos também não possui experiências religiosas tão intensas quando as dos epiléticos. No entanto, todos nós temos lobos temporais. Poderiam padrões momentâneos e esporádicos de disparos dentro deles que não cresçam ao ponto do nível de um ataque produzirem as crenças brandas e menos elaboradas que a maioria das pessoas tomam como certas?

Esta é exatamente a hipótese do neurocientista Dr. Michael Persinger, que chamou estes padrões de ativação de estalos de atividade [N da T - do original temporal lobe transients], ou TLTs. (Persinger 1987, p. 111). Sob esta teoria, TLTs são instabilidades elétricas - microataques - que ocorrem dentro dos lobos temporais de indivíduos normais e são disparadas por uma variedade de condições incluindo estresse físico e mental (como aflição, fadiga, ansiedade, hipoglicemia, ou hipoxia), comportamento ritualizado, padrões sonoros altos e rítmicos tais como canto, palmas ou cânticos, ou a ingestão de certas substâncias químicas. TLTs produzem sentimentos de significação, convicção e redução da ansiedade, e são complementadas pelos padrões condicionados de aprendizado e reforço chamados de religião organizada.

Ainda que as TLTs não tenham sido diretamente medidas devido a sua natureza imprevisível, há boas evidências circunstanciais em favor de sua existência. O Dr. Persinger nota que tecidos dos lobos temporais mostram mais instabilidade elétrica do que qualquer outra parte do cérebro (p. 15). Além disso, a própria existência deles em epiléticos nos dá uma boa razão para suspeitar que ocorram em indivíduos normais também. "Não há nada de incomum em estudar a exceção para encontrar a regra" na neurologia (p. 17), e se os TLTs comportam-se como outros fenômenos, na população em massa eles serão distribuídos ao longo de um contínuo estatístico. A maioria de nós teria alguns pequenos talvez uma ou duas vezes por ano; um número menor de pessoas os teria mais frequentemente. E na ponta mais alta e rara da escala estariam aqueles que têm explosões intensas e freqÜentes de atividade temporal - os epiléticos do lobo temporal.

Podemos fazer outras previsões desta hipótese. Os lobos temporais contem projeções para todas as áreas sensoriais - visão, audição, paladar e olfato, até para as regiões vestibulares (o sentido do equilíbrio). Os TLTs mais intensos poderiam potencialmente se espalhar para essas regiões, produzindo vívidas alucinações sensoriais - os indivíduos afetados poderiam ver formas e paisagens brilhantes, ouvirem vozes, experimentarem um senso de flutuar ou voar, ou experimentar tudo isto de uma vez, dependendo de onde nos lobos temporais a instabilidade elétrica ocorre e quão longe se espalha. Estes sintomas muitas vezes ocorrem na epilepsia do lobo temporal. TLTs mais brandas, tais como as que acontecem na maioria das pessoas, não produziriam estas experiências, mas seriam mais súbitas e abstratas. Dependendo de sua extensão, alguns poderiam ser "altos cósmicos brandos, do tipo que sentimos nas primeiras horas da manhã quando uma verdade escondida se torna um conhecimento súbito. Outras mais intensas evocariam as experiências-pico da vida, e determiná-la logo após. Elas envolveriam conversões religiosas, rededicações, e comunhões pessoais com Deus" (Persinger 1987, p. 16). Como todos os TLTs, eles seriam seguidos por marcadas reduções na ansiedade e expectativas positivas para o futuro. Em qualquer caso, não há diferença fundamental entre os ataques dos epiléticos do lobo temporal e os estalos sentidos pelas pessoas normais - a diferença é uma questão de grau, não de tipo.

Suporte empírico para esta hipótese vem na forma de experimentos conduzidos pelo próprio Dr. Persinger. Não podemos prever estalos naturais no lobo temporal, então é difícil medir precisamente os seus efeitos - mas e se pudéssemos produzir artificiais, sob demanda?

Isto é exatamente o que o Dr. Persinger tem feito, ao construir o que alguns chamaram de o "capacete de Deus". É um capacete normal de motocicleta, encaixado com solenóides que, quando usado, produz um complexo campo magnético projetado para interagir e estimular os lobos temporais do cérebro. Quatro em cada cinco pessoas que se submetem a este experimento relatam sentir uma "presença" na sala com eles, uma que indivíduos religiosos frequentemente identificam como a de Deus (Holmes 2001, p. 28).

É claro, um teísta pode argumentar que tudo o que descobrimos é uma forma de ativar os mesmos canais que Deus normalmente usa para se comunicar conosco. Esta é uma hipótese religiosa, fora do domínio da ciência, e estritamente falando não pode ser desprovada. No entanto, existem várias considerações que pesam contra ela. Primeiro de tudo, não é nada parcimoniosa, contém pressupostos extras que não aumentam seu poder explanatório. Sabemos como um fato que as sensações religiosas podem ser produzidas estimulando certas áreas do cérebro; não sabemos como fato que tais sensações são realmente causadas por uma divindade estimulando essas áreas. A explicação ateísta de que tais sensações surgem de atividade normal neurológica e de nada mais é suficiente, então por que não parar por aí? Insistir em complicar esta explicação perfeitamente suficiente com pressupostos extras é um passo que não pode ser justificado pela evidência, mas só pode ser suportado por compromissos preconcebidos de fé. Considere alguém que acredita em OVNIs argumentando que sim, todas as fotos que temos de supostos veículos espaciais são falsos, mas que aliens sim existem - eles fabricaram as falsificações eles mesmos para nos inspirar para continuar procurando por eles. Dito assim, o absurdo é óbvio, mas alguns teístas fariam um argumento equivalente para Deus.

Em Segundo lugar, a ideia de Deus se comunicando com humanos ativando caminhos específicos no cérebro parece teologicamente problemática. Certamente o fato de que estas sensações místicas podem ser artificialmente reproduzidas deveria ser perturbador para o crente. Por que Deus tornaria possível que ele próprio pudesse ser simulado? Pois o fato de Deus se comunicar conosco através de um canal específico do cérebro deixa aberta a possibilidade de que outras causas possam seqÜestrar este canal e iludir pessoas com visões falsas que elas genuinamente acreditam terem se originado com Deus. (isto, é claro, é exatamente o que acontece na epilepsia do lobo temporal - de novo, ao menos que alguém acredite que Deus está genuinamente falando para essas pessoas.) Não pode ser considerado justo de Deus ter criado nossos cérebros de tal forma que deixa as pessoas vulneráveis a falsas revelações indistinguíveis das genuínas, e então condená-las por serem incapazes de dizer a diferença.

Em terceiro lugar, e se este canal de "comunicação com Deus" está danificado? Essas pessoas não poderiam mais ouvir a voz de Deus? E se assim for, seria justo da parte de Deus condená-las se parassem de seguir os seus comandos simplesmente porque não podiam mais percebê-los? Dr. Ramachandran especula sobre o tópico:

"O que aconteceria com a personalidade do paciente - especialmente sua inclinação espiritual - se removêssemos um naco do seu lobo temporal? Iria ele de repente parar de ter experiências místicas e se tornar um ateu ou agnóstico? Teríamos realizado uma 'deusectomia'? (Ramachandran 1998, p. 187)

Realmente, uma situação assim pode acontecer naturalmente. O Mal de Alzheimer, por exemplo, tende a atacar e destruir o sistema límbico de primeira - e portanto não pode ser coincidência que a parte de interesse religioso é um sintoma freqÜente da doença (Holmes 2001, p. 27). Por que Deus iria criar e depois causar nas pessoas uma doença que lhes priva da capacidade de ouvi-lo e respondê-lo? Iria um indivíduo assim ser punido por descrença na sua morte?

Um teísta pode argumentar que a situação de um indivíduo assim não é assim tão miserável. Um deus onipotente iria sem dúvida manter a capacidade de se comunicar com eles e se fazer ouvir se ele assim desejar, mesmo que os lobos temporais dessa pessoa estejam danificados. Isto é verdade, mas nos traz de volta à pergunta original: por que criar um módulo de "comunicação com Deus" no cérebro humano em primeiro lugar? A explicação do ateu permanece como a mais plausível: de que este módulo cerebral é um legado evolutivo, uma parte de nossos cérebros que primeiro evoluiu para algum propósito adaptativo desconhecido ou como um subproduto, e que persiste hoje e produz as sensações que nossa cultura condiciona as pessoas a interpretarem como a presença de uma divindade. Em resumo, a evidência sugere que Deus está todo nas nossas mentes.

Parte 4: Problemas Filosóficos da Alma

A evidência da neurociência coloca a alma como, no mínimo, desnecessária para explicar os processos mentais, e no pior caso fortemente incompatível com o fato observado ad mutabilidade do eu. No entanto, há vários argumentos adicionais que dão peso às evidências contra esta doutrina teísta.

O primeiro deles é um muito antigo: como, exatamente, uma alma imaterial interage com um cérebro e um corpo material? Que força ou influência casual ela exerce, e através de que mecanismo?

Este argumento é parte de outro mais amplo contra o teísmo, no caso o de que muito de seus termos cruciais tem sido indefinidos. Dizer que algo é "espiritual" ou "imaterial" não explica o que ela é, mas sim apenas o que não é; tudo que isso quer dizer é que um objeto imaterial não sente nem exerce quaisquer das forças que agem sobre a matéria. A alma, presume-se, não é afetada pro ímãs ou cargas elétricas, não é atraída por forças gravitacionais, e não é unificada pelas forças nucleares fortes e fracas. Átomos e outras partículas passam através dela sem serem afetados ou afetando-a, se ela de fato ocupa um lugar no espaço. Não está conectada ao cérebro ou influenciada pelos processos eletroquímicos que lá ocorrem. Como ela pode então possivelmente receber informação sensorial do cérebro, ou afetá-lo em troca? O que exatamente ela faz que confira consciência sobre nós, e como esta influência é transmitida ao cérebro?

Responder a estas questões com "um milagre" é com certeza insatisfatório. Se evocarmos milagres, não avançamos da estaca zero; não respondemos a pergunta, meramente a movemos além do domínio do solúvel. Milagres, por definição, são aquelas coisas que não podem ser testadas, explicadas ou descritas mais a fundo - se não o fossem, não seriam milagres, mas sim eventos normais apropriados para o estudo científico, os quais nos trariam de volta à pergunta original de como a alma interage com o cérebro. Em essência, afirmações de milagres são uma cortina de fumaça para proteger declarações insatisfatórias de serem questionadas mais a fundo.

Existem duas alternativas à essa visão, as quais são chamadas de dualismo substancial. Postula-se que a alma existe, mas que ela também é feita de matéria - a posição dos antigos filósofos atomistas gregos. No entanto, isto implica que a alma possa ser destruída, e que a consciência irá terminar com a dissolução física do corpo perante a morte. Esta visão é inaceitável para a maioria dos teístas modernos. Alternativamente, pode-se especular, como o faz alguns filósofos, que uma alma imaterial existe, mas que ela não exerce e nem pode exercer qualquer força causal sobre o corpo. Esta posição é chamada de epifenomenalismo. Nesta visão, a alma é como uma sombra seguindo as pegadas de uma pessoa, ou como a nuvem de vapor produzida pelo apito de uma locomotiva - trilhando junto com o corpo, mas separado deste.

Epifenomenalismo também pareceria ser uma alternativa inaceitável à maioria dos teístas, porque ela necessariamente nega o livre arbítrio. De acordo com m epifenomenalista, se eu sinto fome e vou para a cozinha pra pegar um petisco, posso acreditar que eu fui para a cozinha porque eu estava com fome, mas eu estaria errado. Meu corpo tornou-se faminto e decidiu pegar um petisco por sua própria vontade, e minha mente causalmente impotente acredita, incorretamente, que ela iniciou a ação. Na sua essência, sob o epifenomenalismo a própria consciência em si é uma falácia post hoc ergo propter hoc que dura a vida inteira. Tão absurda quanto parece, isto é o que o epifenomenalismo necessariamente implica.

Mas se nenhuma destas alternativas serve, ficamos com o dilema de como uma alma imaterial pode de alguma forma alterar o estado do corpo. Como não existe nenhuma resolução adequada para o problema, proponho que o materialismo estrito é a única possibilidade restante que adequadamente explica os fatos. Sob esta visão, não precisamos de nenhum objeto imaterial externo afetando meu cérebro através de algum mecanismo misterioso e indefinido; em vez disso, meu cérebro é um sistema auto-ajustado e causalmente potente sobre sua própria operação, uma teia de ciclos de realimentação que alcançou um ponto crítico de complexidade em que percebe seu próprio funcionamento. Esta proposta lida com todas as evidências disponíveis de uma forma parcimoniosa e fornece uma genuína explicação para os fenômenos mentais.

Um segundo argumento contra a tradicional concepção dualista da alma vem a seguir. Como se pode dizer que uma pessoa tem somente uma alma imutável, quando as pessoas estão constantemente mudando ao longo de toda a sua vida? Em outras palavras, em que sentido um velho no seu leito de morte é o mesmo indivíduo que era na sua infância? Os interesses, desejos, crenças, visões de mundo e valores de uma pessoa frequentemente, se não inevitavelmente, mudam ao longo do curso de sua vida. Muito poucas pessoas, se é que existem, poderiam afirmar com confiança que elas são exatamente as mesmas pessoas que eram há dez anos atrás, ou a aquela que serão daqui a dez anos. Quando uma pessoa morrer na velhice, Deus irá julgá-lo responsável por um chiclete que ele roubou quando tinha oito ou nove anos de idade, mesmo que esse homem tenha aprendido tanto e seus valores tenham amadurecido a tal ponto que ele não mais sonharia em fazer isso de novo, mesmo que as partes de sua alma que lhe fizeram cometer aquele ato tenham há muito tempo deixado de existir?

Como se tem registrado ter sido dito por Heráclito, não se pode pisar duas vezes no mesmo rio. Quando uma pessoa muda a tal ponto que seu eu passado é como um estranho a ela, é realmente justo julgá-la responsável pelas ações daquele eu? Ou temos múltiplas almas ao longo de uma vida, cada uma das quais será julgada independentemente? Mas as pessoas raramente mudam em flashes estilo Damascus Road, instantaneamente saltando de um eu para o outro; em vez disso, as mudanças na silhueta e na consciência de alguém quase sempre se acumulam lentamente umas sobre as outras, e não podem ser localizadas em um simples ponto no tempo. Precisaríamos de um numero infinito de almas discretas para acomodar uma coisa assim, e isto é absurdo.

A consideração final se relaciona de volta ao argumento da unidade mente-cérebro, apresentada na Parte 2 deste ensaio. O fato que um dano cerebral pode alterar o eu implica fortemente que o cérebro é o verdadeiro assento do eu. Alguns teístas rejeitam isto, argumentando que a natureza verdadeira da alma é imutável, mas que se comunica com o corpo somente através do cérebro, e que dano cerebral pode distorcer essa comunicação e fazer com que uma pessoa aja em formas não condizentes com a verdadeira natureza de suas almas.

Mas um argumento assim somente levanta mais perguntas. Por exemplo, por que Deus iria criar uma natureza imutável para a alma e então torná-la sujeita à natureza maleável e imperfeita de um corpo material e falível, e julgá-la pelas ações cometidas por aquele corpo? Por que sequer precisamos desses corpos, se no melhor dos casos eles podem apenas permitir que a natureza real da alma brilhe através deles inalterada, e no pior dos casos obscurecê-la? Dá pra gente acreditar que, por exemplo, numa pessoa com síndrome de Capgras, sua alma reconhece seus pais e amigos e quer lhes responder com amor e afeição, mas é impedida de assim fazê-lo pelo cérebro doente que em vez disso instrui seu corpo para que agressivamente lhes denuncie como impostores? Isto levanta a questão de em que sentido se pode dizer que a alma sequer controla o corpo. Mesmo em pessoas sem distúrbios neurológicos, os desejos de um corpo material falho podem compelir a alma a cometer pecados: ganância, gula, luxúria, ira. Sob o materialismo tais condições fazem sentido perfeitamente - nós somos nossos corpos -, mas nenhum teísta até hoje explicou o objetivo de Deus em aprisionar nossas almas em corpos e as considerando responsáveis pelas irracionalidades incontroláveis desses corpos. Como o evangelho cristão de Mateus diz no verso 26:41, "o espírito em verdade está pronto, mas a carne é fraca". Exatamente.

Parte 5: Os Mistérios da Consciência e o Deus das Lacunas

Apesar de tudo que aprendemos através da ciência sobre como o cérebro funciona, existe um número de questões fundamentais sobre a mente cujas respostas ainda nos intrigam. Uma diz respeito às qualidades subjetivas da experiência sensorial, o que alguns filósofos chamam de qualia. Outra é o enigma do livre arbítrio - somos realmente responsáveis por nossos próprios atos ou controlados por forças além de nós mesmos? A terceira é a natureza da própria consciência em si - sabemos que sabemos de coisas, mas quem é o sabedor? Nesta seção deste ensaio, eu investigarei cada uma destas questões, argumentando que ainda que questões significativas permaneçam em cada caso, todos estes fenômenos podem ser adequadamente explicados por uma visão materialista da mente, e nenhuma nos dá qualquer boa razão para acreditar que exista uma alma imaterial, separada do funcionamento do cérebro, que guie nossas ações.

Qualia

Uma das verdades mais básicas sobre os seres humanos é a riqueza da nossa experiência. Não somos robôs respondendo inconscientemente a estímulos externos; em vez disso, habitamos um mundo interno vívido de percepção sensorial. Estas dimensões internas e subjetivas da experiência são chamadas de qualia, as percepções daquilo que sentimos de algo. (Feinberg 2001, p. 145). As brilhantes cores de um arco-íris, a rajada de um vento frio no rosto ou o prazer de um banho quente, a dureza da lixa ou a suavidade da seda, o gosto da pimenta ou do chocolate, o glissando de uma orquestra ou o arrepio doloroso de unhas sobre um quadro-negro, o arrepio gelado de medo ou o brilho quente da felicidade - todas essas coisas são qualias. Em cada caso, não é a mera descrição da experiência, mas o "sentir" interno da experiência em si que é a qualia. A essência da qualia é impossível de transmitir em palavras; não se pode explicar o som do dó maior para um surdo, nem descrever a cor vermelha para alguém cego de nascença.

A existência da qualia tem sido usada por alguns filósofos dualistas para argumentar que uma explicação estritamente materialista da mente não pode estar correta. A defesa mais bem conhecida desta posição é provavelmente Jackson 1986, que propôs um experimento mental, hoje clássico, que deu origem ao que tem sido chamado de argumento do conhecimento para o dualismo.

Neste experimento, Jackson propõe que uma pessoa (arbitrariamente se assume ser uma mulher, chamada Mary) tenha nascido e crescido num lar onde tudo é preto e branco. As paredes são pintadas de preto e branco, ela tem livros em preto e branco para ler, e tem TV em preto e branco para aprender sobre o mundo externo. Por toda a sua vida, ela nunca se aventurou a sair de casa e assim nunca viu cor. No entanto, ela ouve sobre o conceito de cor e está intrigada, e tem por missão entender o que é a cor.

Mary estuda Física, Química e Neurociência, aprendendo tudo que se sabe sobre a base biológica da visão a cores. Após exaustivos estudos, ela aprende todo e cada fato relevante sobre como os seres humanos vêem cores, produzindo talvez um abrangente gráfico mostrando exatamente como a sensação de cor é produzida no cérebro - desde o tempo que a luz atinge a retina até o momento em que a sensação de cor é conscientemente percebida, detalhando cada neurônio envolvido disparando, cada neurotransmissor liberado e cada reação eletroquímica no caminho. Sob uma concepção materialista da mente, Mary agora sabe tudo que há para se saber sobre as cores.

Imagine então que, após completar seus estudos, Mary pisa para fora de sua casa preta e branca pela primeira vez na vida e vê uma rosa vermelha. Ela a pega e a vê, maravilhada. Ela percebeu que agora sim ela entende o que é a cor, numa forma que ela não entendia antes; além disso, ela percebeu que, apesar da abrangência de seu diagrama, ele era de certa forma incompleto. Existe mais sobre a sensação de "vermelho" do que um mapa neural pode explicar. Existe uma dimensão interna e subjetiva para a experiência - o quale do vermelho - que nenhum exame externo do cérebro pode jamais capturar.

Este é o cerne do argumento do conhecimento. Se nossa neurocientista imaginária soubesse todos os fatos físicos relacionados à percepção cerebral da cor, mas mesmo assim ainda pudesse adquirir novos conhecimentos ao ter ela mesma visto uma cor pela primeira vez, então se conclui que deve haver fatos sobre a mente que não são fatos físicos - em outras palavras, alguma versão do dualismo deve ser verdade.

Como um materialista pode responder ao argumento do conhecimento? A maneira mais fácil seria simplesmente negar a plausibilidade do cenário de Jackson, e afirmar que qualquer entendimento completo do funcionamento físico do cérebro necessariamente incluiria todos os aspectos da percepção sensorial, incluindo a qualia. Em outras palavras, esta posição afirma que uma pessoa que nunca vira a cor vermelha em sua vida, após completar um estudo de como o cérebro percebe cores, necessariamente conseguiria imaginar o vermelho. Ainda que pareça incrível, isso não prevê nenhuma contradição lógica.

No entanto, eu não acredito que esta posição esteja correta. Há uma explicação mais plausível para por que o argumento do conhecimento não serve para derrubar o materialismo. Para ver isto, precisamos de uma versão levemente modificada do experimento mental original de Jackson. Imagine uma situação similar, exceto que nossa pesquisadora hipotética dessa vez toma por objetivo estudar o jogo de tênis, em vez de a neurofisiologia da percepção das cores. Imagine que esta pesquisadora não só memoriza as regras do tênis, mas aprende tudo sobre a física de como se joga o jogo, até a velocidade e orientação corretas da raquete de tênis para devolver um saque que chega a certo ângulo e velocidade. Finalmente, imagine que após completar seus estudos, esta pesquisadora é enviada para uma quadra para jogar seu primeiro jogo real de tênis, contra um tenista experiente - e perde de lavada, como preveríamos. Imagine ainda que com prática, o tênis desta pesquisadora gradualmente melhoraria, apesar do fato que seu conhecimento fatual de jogar o jogo não aumenta. Dever-se-ia, portanto, concluir que o esporte do tênis não é reduzível às regras do jogo e à física da partida? Seríamos forçados a concluir que há alguma "essência do tênis" misteriosa, não-física que nunca pode ser derivada do mero estudo das regras físicas do jogo?

Uma conclusão assim seria totalmente absurda. A resolução correta a este aparente paradoxo é perceber que há mais do que um tipo de conhecimento. Há o conhecimento proposicional - conhecimento dos fatos - mas há também o conhecimento procedural, o tipo de técnica experimental que vem somente através da prática. Os dois não são equivalentes, como o exemplo acima mostra: mero conhecimento proposicional de como jogar tênis não se iguala ao conhecimento procedural que confere técnica ao tênis. De forma similar, quando Mary vê o vermelho pela primeira vez, ela não adquire um novo conhecimento proposicional; ela não aprende nenhum fato novo que já não soubesse antes. O que ela ganha sim é uma nova habilidade: a habilidade de imaginar o quale do vermelho. Qualias em geral são portanto um tipo de conhecimento procedural, e pela natureza de como o cérebro funciona, este tipo de conhecimento pode somente ser adquirido através da experiência própria. No entanto, eles ainda são um fenômeno predominantemente físico.

Para fornecer um maior suporte a esta posição, podemos mais uma vez lançar mão do argumento da unidade mente-cérebro. Neste caso em particular, o argumento toma a seguinte forma: podemos saber que qualias não são entidades não-físicas porque a percepção de qualias pode ser alterada, alterando-se fisicamente o cérebro.

Por exemplo, existe uma condição chamada assimbolia à dor, a qual pode ser produzida por lesão cerebral. Pacientes com essa condição não perdem nenhuma percepção sensorial - elas podem dizer a diferença entre calor, frio, toque e várias outras sensações - mas o que elas parecem perder é a resposta emocional à dor (Feinberg 2001, p. 4). Esta condição pode ser induzida deliberadamente, removendo cirurgicamente conexões nervosas no cérebro, para tratar pacientes que experimentam dor incurável e num estado de miséria e depressão profundas. Após a operação, elas ficam invariavelmente muito mais alegres, e dizem coisas como "a dor é a mesma, mas me sinto muito melhor agora" (Damasio 1994, p. 266). O que estas pessoas perderam senão a qualia de sua "dor"?

Outra condição que demonstra a ligação entre qualia e o cérebro é conhecida como sinestesia. Em pessoas com essa condição, os sentidos têm "linhas cruzadas" - sensações normalmente experimentadas em somente uma modalidade sensorial são sentidas por modalidades adicionais também. Por exemplo, muitos sinestetas vêem cores sempre que ouvem sons; quando ouvem música, eles percebem uma contínua explosão de cores, como fogos de artifício no seu olho da mente. Outros lêem em cores, percebendo cada letra, número ou símbolo que vêem como tendo uma cor distinta e vívida associada a elas, independente da cor real impressa. Outros ainda podem sentir o gosto de formatos, experimentando sensações de textura e formato associadas a certo sabor (Ramachandran and Hubbard 2003). Em um caso recentemente registrado, uma música profissional identificada como E. S. tem uma versão de sinestesia na qual intervalos tonais no som que ela ouve são consistentemente ligados a gostos específicos; ela usa essa habilidade para executar a tarefa complexa de identificação de intervalo tonal na sua música significantemente mais rápido do que os músicos não sinestetas podem (Beeli et al. 2005).

Qual é a causa deste cruzamento de qualias? Uma hipótese é que somos todos sinestetas no nascimento, mas à medida que a maioria de nós cresce, as conexões neurais extras entre os sentidos são suprimidas. Sinestetas adultos seriam meramente aquelas pessoas que mantém essas conexões na maturidade. Sendo isto correto ou não, um fato é certo: a sinestesia pode ser hereditária. A condição ocorre em famílias; aproximadamente um terço dos sinestetas registra ter um membro da família que também possui a condição (veja http://www.synaesthesia.uwaterloo.ca/genetics.htm). Isto pareceria difícil para uma teoria não-materialista da qualia explicar. As almas são hereditárias? A condição da alma dos seus pais influencia a sua condição?

Como os exemplos acima mostram, as qualias são conectadas à estrutura do cérebro, e podem ser alteradas por mudanças a essa estrutura. Portanto, temos que as qualias têm uma base material. Qualias puramente não-físicas, existindo inteiramente em uma mente não-física, não poderiam ser tão afetadas.

Claro, isto não explica como certa entrada sensorial está ligada a uma qualia específica (por que o vermelho parece vermelho e não azul ou verde, ou mais ainda, por que não se "vê" agudo, rangente ou amargo?), o que eu chamo de o problema do mapeamento. A resposta a isto é desconhecida hoje. Pode ser que nunca saibamos; talvez, mente alguma pode sequer se conceitualizar dessa forma. No entanto, também não está fora do domínio da possibilidade que avanços futuros em entendimento possam resolver isto, e eu continuo otimista. (ainda que a ideia de explicar como uma série de disparos neurais produz a sensação subjetiva do "vermelho" possa parecer incrível, o entendimento cientifico do cérebro está realmente na sua infância. Provavelmente não possuímos ainda a plataforma correta para sequer saber que perguntas fazer.). No entanto, em qualquer caso, não há razão para introduzir a ideia de uma alma. Nenhuma hipótese dualista realmente explica a qualia de uma forma que a hipótese materialista não possa. Em vez disso, o dualismo apenas enlameia as águas, adicionando níveis adicionais de complexidade e mistério sem na verdade explicar coisa alguma.

Livre Arbítrio

A próxima dificuldade que uma plataforma materialista da mente deve confrontar é o problema do livre arbítrio. São as nossas ações em algum sentido "com a gente", ou somos meramente peões de forças além do nosso controle? A resposta a essa questão, seja ela qual for, é altamente significante, porque tem repercussões além dos campos rarefeitos da neurologia ou filosofia. Ou seja, somente num universo onde há livre arbítrio é que a responsabilidade moral pode existir. Não faz sentido dizer que o que uma pessoa fez foi errado ao menos que ela pudesse ter escolhido agir diferente.

Neste ponto, advogados do dualismo muitas vezes apresentam o que vêem como um dilema insuperável para qualquer concepção materialista do livre arbítrio. Numa visão de mundo materialista, tudo que existe é no fim das contas matéria e energia, ambos obedecendo a um conjunto de leis físicas precisas. Se não há nada sobrenatural que possa desafiar essas leis, então toda interação que ocorre, em todo nível, é no fim das contas reduzível a elas. A razão pela qual sinto certa emoção ou desejo é por causa de uma série de neurônios disparando em meu cérebro; a razão pela qual esses neurônios particulares dispararam e outros não pode ser explicada em termos de química e eletromagnetismo; esses fatores podem por sua vez serem explicados como um resultado do preciso arranjo de moléculas dentro desses neurônios; e assim por diante.

Mas isto parece apresentar um problema. Afinal de contas, o arranjo de moléculas no meu cérebro pode ser explicado ao se postular que ele evoluiu para esse estado a partir de um estado anterior em acordo com as leis físicas mencionadas acima; esse estado foi por sua vez ditado por um estado ainda anterior; e assim por diante. Se estendermos esta cadeia casual para trás o bastante, parecemos chegar à conclusão de que cada ação que eu tomo durante a minha vida foi predeterminada por causas que estavam em efeito antes de eu vir a existir. Estenda este argumento ainda mais e aparentemente chegamos à conclusão de que tudo que aconteceria na história do universo, incluindo cada evento em cada uma de nossas vidas, foi inalteravelmente fixado no momento do Big Bang. A aparente conseqÜência é que essa escolha é uma ilusão - não houve e não há possibilidade de as coisas acontecerem de qualquer outro jeito senão o jeito em que aconteceram.

Esta posição, que é conhecida como determinismo duro, é impalatável para muitas pessoas, e dá pra se entender. A maioria das pessoas - e eu admito que me incluo nesta categoria - valorizam a ideia de que o futuro não é arranjado, que podemos exercer algum controle sobre ele por nossas escolhas; e o mais importante, que as nossas decisões são de alguma forma nossas e não simplesmente o resultado de uma cadeia mecanicista de causas que se estendem além do início da nossa existência individual. É claro, apenas desgostarmos da ideia do determinismo duro não necessariamente prova que ela é falsa. Mas uma visão de mundo que poderia acomodar a ideia de livre arbítrio e responsabilidade moral seria muito mais atraente para muitas pessoas, e advogados do dualismo teísta muitas vezes afirmam que a visão de mundo deles é assim.

Antes de explicar esta afirmação, no entanto, será beneficial recuar um pouco e examinar o próprio conceito de livre arbítrio. A questão chave é esta: o que significa dizer que uma decisão foi de livre arbítrio? Muitos diriam que se nossas decisões são completamente determinadas por causas anteriores, elas não são livres e assim não podemos ser considerados moralmente responsáveis por elas. Mas se as nossas decisões não são completamente determinadas por causas passadas, então como isto é um progresso? Se certa ação não foi determinada por causas passadas, isso só pode significar que ela aconteceu aleatoriamente. Esta posição, conhecida como libertarianismo (ainda que não tenha relação com a filosofia política do mesmo nome), não parece buscar a responsabilidade moral que o determinismo duro nega. Afinal de contas, se nossas decisões são aleatórias, isso significa que acontecem por razão nenhuma, e novamente não se pode dizer que temos qualquer controle sobre elas, não mais que podemos controlar o resultado de um lançamento de um par de dados.

Existe uma lacuna entre o determinismo e o aleatório onde o livre arbítrio possa se encaixar? Mas que terceira opção possa existir além dessas duas? Ou um evento foi causado ou não foi; isso certamente parece esgotar todas as possibilidades. Se nossas decisões não são nem causadas nem não-causadas, que outra opção há? Este dilema parece sugerir, olhando por cima, que o próprio conceito de livre arbítrio possa ser incoerente.

No entanto, eu acredito que existe uma solução a este paradoxo que seja compatível com o materialismo. Para ver como isto é possível, considere um exercício de pensamento que chamo de "a máquina de predição". A máquina de predição é uma construção que é informada de uma escolha que você está atualmente encarando e leva em conta toda a informação de contexto necessária, até o nível (e incluindo) o estado exato de cada partícula subatômica dentro do seu cérebro, para predizer infalivelmente qual será a sua decisão. Se as suas decisões não são de livre arbítrio e são o resultado de uma cadeia mecanicista de causa e efeito, é logicamente possível construir uma máquina de predição funcional. Reciprocamente, se é logicamente impossível construir uma máquina de predição, então o determinismo duro tem que ser falsa.

Ainda que este conceito sozinho não pareça iluminador, ele pode ser usado como a fundação para uma poderosa compreensão. Usando essa fundação, irei avançar uma conclusão que pode parecer audaciosa. Para fins de clareza, declararei a conclusão antes de explicar o raciocínio que levou a ela: é logicamente impossível construir uma máquina de predição, pelo menos em qualquer mundo que obedeça às mesmas leis físicas que o nosso obedece.

Por que isto? Considere o clássico experimento chamado "O demônio de Maxwell". O demônio de Maxwell é um pequenino ser que controla um portão do tamanho de um átomo entre dois reservatórios de gás de mesma temperatura. Quando o demônio vê um átomo levemente mais rápido (i.e. mais quente) se aproximando de um lado, ele abre o portão para deixá-lo passar; quando ele vê um átomo levemente mais lento (e portanto mais frio) se aproximando do outro lado, ele também o deixa passar. Caso contrário, ele mantém no mesmo lado qualquer átomo que se aproxime. Desta forma, o demônio poderia aparentemente criar um diferencial de temperatura entre os dois lados - revertendo assim a entropia e criando energia útil - sem fazer qualquer trabalho. Isto é uma aparente violação da Segunda Lei da Termodinâmica.

A solução para este paradoxo não é filosófica, e sim prática. Se o demônio de Maxwell fosse onisciente e pudesse perceber a temperatura de cada partícula de gás que se aproxime sem ter que interagir com ela de forma alguma, então ele poderia realmente violar a Segunda Lei da Termodinâmica. Mas em nosso mundo, isto é impossível. A única forma de dizer o quão rapidamente um átomo vizinho está se movendo é rebater um próton nele, um processo ao qual normalmente nos referimos como 'ver', e acontece que o aumento em entropia que tal observação implica contrabalanceia qualquer diminuição de entropia que o processo de resolver átomos poderia produzir, fazendo com o que o sistema como um todo obedeça às leis da termodinâmica.

Uma razão similar explica por que as máquinas de predição são impossíveis. A razão pela qual uma máquina assim não pode ser construída é que, no mundo real, predição requer medição, medição requer interação, e interação imprevisivelmente muda o sistema com o qual interage. Estas perturbações inevitáveis tornam impossível a predição acurada das ações de livre arbítrio de uma pessoa.

Como um exemplo mais concreto, imagine que apresentaram a você um teste simples de escolha forçada. Digamos, um cartão vermelho e um azul dispostos lado a lado sobre uma mesa, e você deve escolher e pegar um deles. Para provar que o livre arbítrio não existe e que as suas decisões são meramente o resultado de leis mecanicistas de causa-e-efeito, você está amarrado à máquina de predição antes de fazê-lo, e essa máquina tem a tarefa de determinar de antemão qual carta você escolherá. Avaliando as características relevantes de cada partícula subatômica na sua cabeça, ela faz uma predição sobre qual será a sua escolha.

Mas o mero ato de fazer essa predição a invalida. Ao medir o estado do seu cérebro, a máquina de predição mudou esse estado, e sua predição pode agora acontecer de estar errada. (isto pode ser conceituado em termos mecanicistas - ao sondar os níveis relativos de neurotransmissores, potenciais elétricos de neurônios chave, e assim por diante, pode ter mudado estas características e alterado portanto a sua escolha - ou pode ser conceituado em termos de mais alto nível - sabendo que a máquina está tentando te adivinhar, você altera a sua escolha. De qualquer forma, acaba sendo a mesma coisa.). A única forma que garante que a predição seja precisa é rodar a máquina de predição novamente; mas ao fazê-lo, esse estado é modificado novamente, e assim a segunda predição é da mesma forma invalidada. Ela ainda pode estar correta, mas não pode mais ser garantida que esteja.

A conseqÜência deve ser óbvia. Não importa quantas vezes a máquina de predição seja executada, nunca produzirá uma predição cuja precisão possa ser garantida. Isto nada tem a ver com os limites práticos dos recursos dos construtores de máquinas. Enquanto tiver que obedecer às leis da física, predição acurada e infalível é impossível, não importa quanta informação de contexto ela possua. Uma máquina assim pode fazer predições que estejam muitas vezes corretas, mas não pode fazer predições que estejam sempre corretas. Resumindo, o comportamento humano é previsível num nível estatístico, mas não em num nível individual. E isto é um componente central do que é normalmente dito pelo entendimento comum do termo "livre arbítrio".

Ao propor esta definição, eu não procuro postular um terceiro tipo de ação, uma que não seja nem causada nem não-causada. Decisões humanas têm causas (ou motivações, se preferir); isto deveria ser óbvio. Temos boas razoes para acreditar que a base da mente é materialista, o que se for verdade significa que o livre arbítrio libertário não pode existir. Eu vejo isto como uma coisa boa, porque em minha opinião o libertarianismo destrói a possibilidade da responsabilidade moral mais ainda do que o determinismo duro. Mesmo num mundo de determinismo duro, existe a possibilidade que as pessoas que ferem outras podem ser reabilitadas através da punição, mas num mundo onde as ações humanas são fundamentalmente aleatórias, não há razão alguma para acreditar que tal tratamento iria funcionar.

Como eu disse, eu não estou procurando forçar uma terceira alternativa entre as opções de as decisões serem causadas e serem não-causadas. Em vez disso, eu argumento que a opção que as decisões são causadas deveriam na verdade ser apropriadamente vistas como duas opções separadas - causadas e previsíveis, e causadas mas imprevisíveis. Argumento ainda que o determinismo duro devesse ser visto como equivalente ao primeiro, enquanto que o último é o que deveria significar o termo livre arbítrio. Se as decisões não podem, mesmo por princípio, ser preditas antes do tempo, eu sustento que é inútil rotulá-las como determinísticas no sentido puro.

Neste ponto, algumas clarificações adicionais precisam ser feitas. Ainda que a imprevisibilidade seja um componente necessário do livre arbítrio, não é um suficiente. Afinal, se o argumento acima está correto, então predizer infalivelmente o comportamento de qualquer sistema suficientemente complexo é impossível, pelas mesmas razoes. Mas é absurdo dizer que os dados possuem livre arbítrio, só porque seu comportamento é imprevisível. Em vez disso, eu argumento que existem outras condições que também precisam ser satisfeitas para uma decisão ser considerada livre, todas as quais acredito serem firmemente enraizadas no senso comum. Além de serem causadas porém imprevisíveis, uma decisão de livre-arbitrio deve ser:

Acredito que esta definição se encaixa no uso comum do livre arbítrio: atos executados por uma pessoa consciente que surgem da natureza dessa pessoa, que tem causas e motivações, que são potencialmente em grande parte previsíveis, mas não completamente previsíveis independente de quanta informação do contexto se possua. Num mundo materialista, este tipo de livre arbítrio é eminentemente possível, e de forma alguma nega a responsabilidade moral individual.

Como o livre arbítrio pôde chegar a existir? De longe a resposta mais plausível envolve os processos evolutivos que criaram a espécie humana. Afinal de contas, o livre arbítrio é uma propriedade altamente adaptativa. Uma criatura viva sem livre arbítrio, ou alguma capacidade equivalente de tomada de decisão, seria necessariamente guiada puramente por instinto pré-programado. Isto pode funcionar somente enquanto essa criatura nunca encontre nada além do alcance limitado de situações com as quais é programada para lidar, mas se é encarada com uma situação que não se encaixa nos pressupostos de sua programação, será incapaz de responder efetivamente e pode muito bem morrer. (para um excelente exemplo de o quanto a programação instintiva pode produzir uma criatura incapaz de lidar com situações novas, considere a vespa sphex). Em contraste, um ser vivo com livre arbítrio teria uma excelente chance de responder apropriadamente no importa qual tipo de situação encare, em vez de se tornar inerte ou entrar um loop infinito como faz a vespa sphex. Isto poderia ser uma poderosa vantagem seletiva que a evolução favoreceria para os seres vivos, como os ancestrais dos humanos, que habitavam ambientes complexos e imprevisíveis.

Consciência

No entanto, o requisito de que atos dotados de livre-arbítrio só podem ser feitos por um agente consciente nos traz ao enigma final e possivelmente o mais difícil de todos - a fonte da consciência em si. Como é que somos conscientes de nós mesmos como indivíduos autônomos? Quem ou o que é o observador, o "eu", que reside dentro de cada uma de nossas mentes e que faz a percepção real? Como é possível que nos possamos "afastar" e examinar nosso próprio funcionamento mental com um cérebro feito de neurônios, ainda que nenhum neurônio individual possua tal habilidade?

Ainda que uma resposta completa a esta pergunta esteja além do escopo deste ensaio, e realmente além do escopo do conhecimento humano desta época, uma coisa é certa: os teístas que afirmam que é logicamente impossível que a consciência possa surgir da não-consciência, ou que fazem afirmações semelhantes, estão errados. Simplesmente porque nenhuma célula nervosa ou reação eletroquímica individual possui a propriedade da consciência, não se pode concluir que um grande número delas, arranjadas corretamente, não possa possuir esta propriedade. Da mesmíssima forma, só porque nenhum tijolo individual possui a propriedade de ser uma casa, não se segue que nenhum arranjo de muitos tijolos também não pode possuir esta propriedade. Existem muitos sistemas onde o arranjo e a interação de componentes simples pode produzir propriedades e comportamentos novos e complexos, que nenhum componente individual tem.

Este é o conceito do campo da teoria da complexidade, chamado emergência. Fenômenos emergentes são aqueles que surgem espontaneamente da interação de componentes mais simples, produzindo novos níveis de complexidade com novas propriedades que não existem em nenhum dos componentes tomados individualmente. Por exemplo, as propriedades de uma proteína emergem da interação dos aminoácidos que a formam. As propriedades de uma revoada de pássaros ou de um cardume emergem do comportamento dos animais individuais neles. As propriedades de um mercado de ações emergem das ações dos especuladores individuais que o forma. Em todos os casos, estudar o comportamento dos componentes individuais do sistema isoladamente provavelmente não fornecerá conhecimento sobre a origem de comportamentos do sistema como um todo, e o comportamento exibido por cada componente individual é muito mais simples do que o comportamento do sistema. Consciência é quase que certamente deste mesmo tipo de fenômeno, e como tal, qualquer tentativa de isolar uma única de fonte ou ponto de origem para ela está muito provavelmente condenada a falhar. Todo o nosso entendimento da neurociência pesa contra a possibilidade de um "teatro cartesiano", um centro único de consciência no cérebro onde todos os fluxos discrepantes de processamento de informação se reúnem como um filme rodando numa tela. Em vez disso, a consciência é muito provavelmente uma propriedade emergente do agrupamento inteiro dos neurônios no cérebro, tomados como um todo.

O Deus das Lacunas

É claro, isto não explica com certeza como a consciência surge. No entanto, isto nunca foi minha intenção. Estas questões estão no coração do que significa ser humano, e possivelmente dos mistérios mais fundamentais que jamais iremos confrontar. Elas têm sido estudadas e debatidas por cientistas e filósofos por séculos e com toda certeza continuarão a ser estudadas por séculos à frente. Eu não afirmo ter explicado em riqueza de detalhes como tais coisas vêm a ser. Em vez disso, é meu objetivo mostrar que estes fenômenos são compatíveis com uma visão de mundo ateísta - de que temos razão para acreditar que elas possam existir em um mundo material, mesmo que não saibamos exatamente como. Neste respeito, materialismo e dualismo estão em igualdade. Uma vez estabelecidos, argumentos adicionais como o da unidade mente-cérebro deslocam a balança a favor do materialismo. Qualia, livre arbítrio e consciência, misteriosas do jeito que são, não fornecem conforto algum a hipóteses baseadas na alma.

Afinal de contas, que melhor explicação o dualismo pode oferecer para quaisquer dessas coisas? Se explicarmos qualia, livre arbítrio ou a consciência dizendo "a alma os faz", o que mais sabemos além do que tínhamos no começo? Não só postular uma alma não explica nada, como isso explicitamente descarta a possibilidade de melhorar nosso entendimento posterior, já que fenômenos sobrenaturais por definição não seguem regras que possamos entender. Por contraste, se ficarmos com a visão naturalista que até então é suportada por toda a evidência disponível, o incrível sucesso que a neurociência tem obtido até aqui em desvendar o funcionamento da mente nos dá razão para acreditar que descobriremos ainda mais no futuro.

Atribuir os mistérios da mente a uma alma material é um erro natural a se fazer. Por toda a história humana, as pessoas empregaram este tipo de raciocínio "Deus das Lacunas": sempre que topamos com algo que não entendemos, atribuímos isto à ação de uma força sobrenatural. Se a alma tem que ser adicionada à lista das coisas "explicadas" por este método, então eu fico contente, porque toda outra entidade que já estivera nessa lista foi no fim das contas mostrada como tendo uma origem e explicação totalmente naturalísticas. O dia e a noite, a natureza da lua e das estrelas, os ciclos das estações, a causa das doenças, os movimentos dos planetas, o clima, a fonte de desastres como terremotos - hoje sabemos que todas essas coisas e muito mais são fenômenos naturais, sem deuses habitantes de lacunas sendo necessários para explicá-los. As explicações sobrenaturais para estas coisas se derreteram sob a luz das explicações científicas, muito mais satisfatórias, e estou confiante que a fonte da mente irá eventualmente juntar-se a elas.

O Deus das Lacunas era um método comum de raciocinar quando as pessoas não sabiam direito das coisas, mas hoje nós sabemos. Nós temos uma forma real de entender o mundo agora, uma forma melhor. Enquanto que ainda existem muitas coisas das quais não sabemos, não temos mais qualquer razão para atribuir qualquer coisa a forças mágicas, exceto pelos focos resistentes que ainda restam de pensamento sobrenatural que pairam sobre nós tal qual vapor. É o momento para nós de deixar de lado estes últimos traços de nosso passado supersticioso; temos a sabedoria e a maturidade de encarar a verdade sobre quem e o que somos. Não há nada de depreciativo sobre a base material de nossas mentes - nossos cérebros são instrumentos realmente maravilhosos, cujo poder nos capacitou a fazer muitas coisas incríveis, e é hora de começarmos a dar crédito ao que merece. Atribuir os feitos de nossas mentes a um fantasma na máquina das nossas cabeças é uma ideia que não pode mais ser suportada, e portanto deveria ser deixada de lado de uma vez por todas.

Trabalhos Citados

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